Opinião: Por que não apostamos em insetos como fonte de proteína alternativa

Insetos são animais e, além de carregarem os mesmos desafios éticos da criação de outros seres vivos para consumo, também apresentam ineficiência de produção, risco de doenças infecciosas e riscos ambientais.

Por Gustavo Guadagnini, presidente do The Good Food Institute Brasil

Recentemente, o programa Globo Repórter da TV Globo exibiu uma reportagem muito interessante sobre tecnologias alimentares já conhecidas e outras que estão em pleno desenvolvimento, com potencial de criar um sistema alimentar mais sustentável. Passando por iniciativas relacionadas à redução do desperdício, PANCS e proteínas alternativas obtidas por fermentação, cultivo celular e feitas de plantas, um dos quadros também trouxe a utilização de insetos para alimentação humana. 

Como presidente do The Good Food Institute Brasil, uma organização que apoia o desenvolvimento de proteínas alternativas, quero esclarecer porque nossa organização não endossa o desenvolvimento da cadeia de alimentos a partir de insetos e como ela se compara às tecnologias do nosso setor. 

Insetos: animais, não alternativas

A inclusão de insetos como uma opção de proteína não está alinhada com a nossa missão de buscar alternativas aos produtos de origem animal, devido aos desafios éticos similares aos enfrentados na criação de animais para abate, como a questão do bem-estar animal e da moralidade de utilizar seres vivos para consumo.

Aceitação do consumidor

O nosso setor trabalha para entregar alimentos que já façam parte da cultura e dos hábitos alimentares das pessoas, produzidos com tecnologias mais adequadas socioambientalmente. Os alimentos com os quais trabalhamos têm uma alta aceitação pelos consumidores, que estão cada vez mais interessados em experimentá-los e incorporá-los em suas dietas. Já a aceitação do consumo de insetos é notoriamente baixa.

Apesar de serem consumidos em algumas regiões da Ásia, África e América do Sul, na Europa, por exemplo, apenas 10% da população estaria disposta a experimentar insetos, de acordo com uma pesquisa da Organização Europeia de Consumidores. Isso porque boa parte da população não associa insetos com comida, mas com algo grotesco ou que pode fazer mal à saúde. Além disso, uma pesquisa da universidade Imperial College London, no Reino Unido, indica que o desenvolvimento dessa indústria visa atender, majoritariamente, o mercado de países em desenvolvimento. A alegação é de que em países mais ricos, como os europeus, raramente há falta de nutrientes na dieta. O impacto global de qualquer fonte alimentar depende diretamente da sua aceitação pelo consumidor: se as pessoas não aceitarem o inseto como alimento, seu impacto no mundo será sempre limitado.1

Substituição da carne 

Sempre que vemos apresentações sobre os benefícios socioambientais do consumo de proteínas alternativas e de insetos, há comparação com a carne. Ambas podem, sim, ser fruto de uma produção mais eficiente do que a carne animal, mas essa comparação só é verdadeira se uma estiver substituindo a outra. Se o consumidor deixar de comer carne animal para comer carne vegetal, haverá um benefício para a sustentabilidade. A questão é que os alimentos vindos de insetos não possuem essa proposta, uma vez que são snacks, barrinhas de proteína e suplementos, por exemplo.

A melhor proposta comercial para insetos é moê-los para transformá-los em pó e incluir em alimentos processados. Não existem bons produtos feitos de insetos que realmente se comparam ao sabor, textura, aroma e aparência da carne. Se não há troca, a comparação com a carne deixa de fazer sentido – e os benefícios para a sustentabilidade não se realizam.

Eficiência na produção

Hoje, nós cultivamos grãos para alimentar animais para consumo em uma taxa extremamente ineficiente. Os dados mostram que 83% das terras aráveis do planeta produzem menos de 20% das calorias consumidas2. São grandes áreas de soja, milho e outros grãos que alimentam os animais e não a população diretamente. Para cada caloria que alguém consome da carne de vaca, cerca de 34 calorias foram dadas ao animal ao longo da vida, o que representa um desperdício desproporcional das calorias produzidas pelo sistema de alimentação3: a produção mais eficiente, de frango, tem taxa de conversão de 8:1, por exemplo. 

Enquanto isso, as proteínas alternativas permitem que você coma o vegetal diretamente, sem ser processado anteriormente por um animal. Não é o mesmo para insetos, que também se alimentam para gerar calorias depois. Estudos indicam que os insetos produzidos para a alimentação humana podem ter conversão tão ineficiente quanto a carne de frango4, variando de 4:1 a 9:1 na proporção de alimento consumido versus peso no abate. Vale destacar também que os insetos que se alimentam de resíduos não podem ser utilizados para consumo humano, como muitas vezes somos levados a crer5.

Riscos ambientais

A eficiência de produção está diretamente ligada à emissão de gases, uso de água e de terras. Por isso, todas as tecnologias de proteínas alternativas são mais sustentáveis do que os alimentos que substituem. Como demonstrado acima, o caso dos insetos não é tão claro. Ao mesmo tempo, a produção de insetos agrega novos riscos ambientais: se uma construção que abriga quantidades massivas desses animais for danificada por um acidente ou um evento climático, por exemplo, milhares de insetos exóticos, com um alto potencial de destruição e desequilíbrio, poderiam ser liberados na natureza.

Recentemente, problemas causados por nuvens de gafanhotos foram manchetes globalmente6. Além disso, ainda não existem regulamentações sobre o manuseio de insetos e eles costumam ser transportados de forma manual, seja para fins de pesquisa ou produção de alimentos. Em geral, insetos vivos são transportados em carros comuns, dentro de bandejas ou caixas. No caso de um acidente automobilístico, eles seriam liberados no meio ambiente, com um potencial imensurável de gerar um desastre ecológico.

Riscos de saúde global

Muitas das produções de insetos ainda utilizam grandes quantidades de antibióticos, assim como qualquer outra produção animal. Esse fato colabora para a formação de bactérias resistentes, com potencial de afetar a saúde humana. Ao mesmo tempo, os insetos também são vetores dos vírus, trazendo um risco adicional.

Sabemos que os animais em produção são um grande risco de saúde para a humanidade: a OMS alerta que 60% das novas doenças infecciosas são de origem zoonótica, ou seja, vem dos animais7, como a gripe aviária e a suína, que têm aparecido nos jornais. Isso acontece mesmo considerando que a taxa de transmissão de doenças entre animais de criação e humanos é baixa. 

As proteínas alternativas, por sua vez, oferecem zero risco de formação de novas infecções. Já com os insetos, a situação é muito diferente: na verdade, a taxa de transmissão de doenças entre insetos e humanos é muito maior do que entre nós e os animais vertebrados8. Basta pensar em quantas doenças têm insetos como vetores9: esse é o risco adicional que sofreremos com as grandes fazendas de insetos10.

Priorizando alternativas sustentáveis e éticas

Embora o uso de insetos como uma forma de proteína possa ser explorada para outros fins, como alimentação animal, é pouco provável que se estabeleçam como uma opção significativa na dieta humana. Em contraste, as proteínas derivadas de vegetais, fermentação e cultivo celular estão avançando rapidamente, com uma aceitação crescente por parte dos consumidores e impactos socioambientais cada vez mais positivos. Essas tecnologias permitem replicar a experiência sensorial dos produtos de origem animal sem os problemas éticos e ambientais associados à produção de proteína animal e são um movimento plausível e previsto pela maioria das consultorias de mercado.

Nossa missão é clara: promover soluções alimentares que sejam não apenas sustentáveis, seguras e eficientes, mas também éticas e que possam ser adotadas pelo maior número possível de consumidores. É por isso que continuaremos a apostar nas proteínas alternativas como solução para o futuro da alimentação.

  1. 1. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0195666320316809 ↩︎
  2.  2. https://www.science.org/doi/10.1126/science.aaq0216 ↩︎
  3.  3. https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/11/10/105002 ↩︎
  4.  4. https://journals.plos.org/plosone/article/file?id=10.1371/journal.pone.0118785&type=printable ↩︎
  5.  5. https://www.fao.org/3/i3253e/i3253e.pdf ↩︎
  6.  6. https://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/aconteceu-em-2020-gafanhoto/ ↩︎
  7.  7. https://www.emro.who.int/fr/about-who/rc61/zoonotic-diseases.html ↩︎
  8.  8. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24705326/ ↩︎
  9.  9. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/vector-borne-diseases ↩︎
  10.  10. https://link.springer.com/article/10.1007/s00217-016-2828-4 ↩︎

Mercado brasileiro de carnes vegetais ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão em 2023

Em 2023, o consumo de substitutos vegetais de carnes e frutos do mar atingiu novos patamares no Brasil, com as vendas no varejo alcançando R$1,1 bilhão, um aumento de 38% em relação ao ano anterior. O volume de produtos vendidos (toneladas) também cresceu substancialmente, com um aumento de 22%. Já o mercado de leites vegetais apresentou um crescimento de 9,5%, com vendas totalizando R$673 milhões.¹

Em 2022, os substitutos vegetais para carne e frutos do mar já haviam demonstrado um crescimento significativo de 42%, alcançando R$821 milhões em vendas. Os leites vegetais também cresceram 15%, atingindo R$612 milhões. 

Voltando a 2021, o crescimento foi igualmente promissor, com um aumento de 30% nas vendas desses substitutos comparado a 2020. Nessa época, a Euromonitor já previa que o setor poderia ultrapassar os US$425,3 milhões em vendas até 2026 (aproximadamente 2,2 bilhões de reais na cotação atual) – e os dados mais recentes indicam que estamos no caminho certo para superar essas expectativas.

Para saber mais sobre os mercados globais de carne cultivada e de alimentos vegetais análogos e obtidos por fermentação, acesse os novos relatórios do GFI “State of The Industry Reports 2023”. 

Veja uma prévia das principais análises que você vai encontrar nos relatórios:

Acesse os relatórios na íntegra para se aprofundar nas análises e estar atualizado sobre tudo que vem acontecendo no setor globalmente!

1.”Euromonitor International Limited, Fresh Food 2024, retail value RSP incl sales tax, US$, fixed 2023 exchange rate, constant terms. © 2023 The Good Food Institute, Inc.

Confira a programação do GFI Brasil no Nutri Ingredients Summit 2024

O Nutri Ingredients Summit é o maior e mais completo evento focado em saudabilidade do país e o The Good Food Institute Brasil é um dos parceiros oficiais da iniciativa.

Em sua 4ª edição, que acontece em São Paulo, no Transamérica Expor Center, entre os dias 23 e 24 de abril, o summit promete conectar fornecedores de ingredientes funcionais às indústrias de alimentos, bebidas, suplementos alimentares e farmacêuticos.

Você não pode ficar de fora!

Acesse a página do evento para conferir a programação completa e  se credenciar gratuitamente até o dia 20/04/2024.

Conecte-se com o GFI Brasil no NIS Application Trends

O NIS Application Trends é uma arena aberta a todos os visitantes, realizada pelos patrocinadores com o objetivo de apresentar lançamentos em ingredientes e demonstrar como podem ser aplicados pela indústria.

Nessa edição, o time de Ciência e Tecnologia do GFI Brasil vai apresentar cases que visam atribuir ainda mais sustentabilidade aos produtos análogos plant-based.

Confira a nossa programação:

10h30: Proteínas vegetais nacionais com potencial para aplicação em alimentos vegetais análogos

Palestrante: Dra. Ana Carla Sato – Professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos UNICAMP

10h50: Desenvolvimento de ingredientes por fermentação a partir de resíduos (ou subprodutos) de amendoim

Palestrante: Dra. Paula Speranza – Fundadora da ProVerde 

11h10: Ingredientes da biodiversidade: perspectivas e desafios

Palestrante: Dra. Luciana Fontinelle – Coordenadora do Programa Biomas do GFI Brasil. 

11h30: Mesa Redonda : Ingredientes Vegetais Sustentáveis para Indústria Plant-based.

Mediadora: MSc Cristiana Ambiel – Gerente de Ciência e Tecnologia – GFI Brasil

Participantes: Dra. Ana Carla Sato (UNICAMP), Dra. Paula Speranza (ProVerde) e Dra. Luciana Fontinelle (GFI Brasil). 

Serviço:

– GFI Brasil no Nutri Ingredients Summit – NIS 2024

– Dia 23/04, à partir das 10:30 da manhã

– Transamérica Expor Center, na arena Aplications Trends.

End.: Av. Dr. Mário Vilas Boas Rodrigues, 387 – Santo Amaro, São Paulo – SP, 04757-020

Esperamos por vocês! 

Segunda empresa de carne cultivada recebe aprovação regulatória em Singapura

SINGAPURA, 4 de abril de 2024 – Em mais um marco regulatório importante, a Agência de Alimentos de Singapura (SFA) aprovou a venda da codorna japonesa cultivada da startup australiana Vow, sob sua marca de luxo, Forged. Com isso, a Vow se torna a segunda empresa a receber aprovação para vender carne cultivada em Singapura, seguindo a GOOD Meat com seu frango cultivado em 2020. 

 

Os apreciadores da boa comida em Singapura terão a oportunidade exclusiva de experimentar o Forged Parfait durante um jantar especial no Mandala Club, de 12 a 27 de abril, com um menu omakase de sete pratos. Após a aprovação da SFA, a Vow está começando a vender ingressos para o lançamento VIP do Forged Parfait no Mandala Club de Singapura, entre 12 e 27 de abril. 

 

A codorna cultivada da Vow também está nas etapas finais de revisão regulatória com a agência governamental australiana, a Food Standards Australia New Zealand (FSANZ).

 

“Estamos entusiasmados em testemunhar outra empresa alcançar a aprovação pré-mercado para seu produto de carne cultivada em Singapura. Cada novo participante no mercado agiliza o escalonamento de maneiras mais eficientes de produzir proteína. Tão diversificadas quanto as culinárias do mundo são os empreendedores e suas visões desenvolvendo alimentos novos. Enquanto a GOOD Meat recriou pratos familiares conhecidos, seguindo receitas de frango antigas e muito amadas, a Vow está criando carne que traz algo novo para a mesa, não apenas do ponto de vista tecnológico, mas também do paladar. Juntas, ambas as abordagens aumentam a escolha do consumidor. Esperamos uma diversificação crescente no setor de carnes cultivadas, capaz de satisfazer desde consumidor rotineiro até os apreciadores mais exigentes”, Gustavo Guadagnini, Presidente do GFI Brasil.

Envie sua proposta para o Programa Global de Incentivo à Pesquisa do GFI!

O Research Grant Program de 2024 acaba de ser lançado e vai financiar até U$ 3,4 milhões em pesquisas de acesso aberto em proteínas alternativas! Se você tem interesse em desenvolver uma pesquisa sobre uma das áreas contempladas, não perca essa oportunidade!

 

O nosso Programa anual apoia pesquisas de acesso aberto destinadas a resolver os desafios enfrentados pela indústria de proteínas alternativas e, desde 2019, já destinamos US$ 21 milhões para 118 projetos em 21 países.

Neste ano, vamos aprovar pesquisas através do mecanismo Field Catalyst, que consiste em financiamentos de projetos de até US$250.000 e até 24 meses de duração,  com recursos adicionais de até US$ 50.000 disponíveis para parcerias com novos pesquisadores da área (que não receberam financiamento do GFI antes) e/ou partes interessadas do setor. O prazo final para envio de propostas é 23 de maio de 2024.

 

Aceitaremos inscrições em três áreas temáticas:

 

Aproveitamento de subprodutos e resíduos vegetais

Melhoria da funcionalidade de novos ingredientes proteicos a partir de subprodutos da indústria alimentícia usando métodos/tecnologias emergentes, com avaliação da viabilidade técnica e econômica do produto e do processo.

 

Nova geração de processos de downstream para fermentação

Abordagens sustentáveis e de baixo custo para purificação de proteínas alimentícias obtidas por fermentação de precisão.

 

Otimização da produção de hidrolisados para viabilizar meios de cultivo de baixo custo

Aprimorar os métodos de processamento e a caracterização de matérias-primas para obtenção de ingredientes hidrolisados que sejam eficientes e de baixo custo para aplicação em meios de cultivo.

 

 

Sessões de informações sobre o Programa Global de Incentivo à Pesquisa e sobre as três áreas prioritárias:

 

2 de abril às 12h00 (BRT): webinar global (ING). A gravação do evento ficará disponível no canal do Youtube do GFI. Inscreva-se no webinar aqui.

 

10 de abril, às 14h00: webinar do GFI Brasil para responder todas as dúvidas dos aplicantes. A gravação do evento ficará disponível no nosso canal do Youtube. Inscreva-se no webinar aqui.

 

Para dúvidas sobre o Programa ou o processo de submissão de propostas, por favor, consulte a seção FAQ no final do edital ou contate nossa equipe em research_grants+RFP@gfi.org (enviar perguntas em inglês).

 

Estamos ansiosos para ver sua pesquisa sendo a próxima a avançar a ciência das proteínas alternativas!

Quer saber como criar a próxima startup de sucesso do mercado de proteínas alternativas? Nosso Guia para Startups chegou para te ajudar!

Se você tem vontade de empreender, mas não sabe por onde começar, nós criamos um guia completo para te ajudar – da concepção da sua startup até o lançamento do seu produto. Com um capítulo específico para pesquisadores entenderem como levar sua pesquisa para o mercado, o nosso novo Guia para Startups busca encorajar uma nova onda de empreendedores. Entenda mais sobre ele com nosso especialista em Engajamento Corporativo, Guilherme Oliveira.

 

O mercado de proteínas alternativas tem se destacado globalmente como um setor de rápido crescimento. No Brasil não é diferente e, aqui, esse setor tem se mostrado um campo fértil para  inovações e oportunidades de negócios. 

Segundo os dados mais recentes da plataforma Passport da Euromonitor, em 2022, o mercado de análogos vegetais de carne e frutos do mar no Brasil alcançou R$821 milhões em vendas no varejo, marcando um crescimento de 42% em comparação com o ano anterior. Já o comércio de leites vegetais atingiu R$612 milhões em vendas, registrando um aumento de 15% em relação a 2021.

 

Esse resultado positivo reflete o investimento contínuo em tecnologias para melhorar as características sensoriais, nutricionais e a disponibilidade dos produtos, resultando em um ecossistema com pelo menos 107 empresas brasileiras, algumas delas, inclusive, já exportando exportando para outros países.

E para que você tenha chances de criar o próximo negócio de sucesso no mercado de proteínas alternativas, nós desenvolvemos o Guia para Startups. Com ele, empreendedores poderão transformar ideias em realidade, a partir de dicas fundamentais para a criação de uma startup, desde a concepção da empresa até o lançamento dos produtos.

 

O Guia  é dividido em seis capítulos: planejamento, criação da startup, financiamento, desenvolvimento do produto, integração entre universidade e indústria e estratégias de venda. Esperamos que, com ele, qualquer pessoa que busque empreender encontre todos os caminhos para criar uma empresa robusta do zero.

 

 

O setor de proteínas alternativas, diferente de outras indústrias, é um setor de pesquisa muito intenso: muitas vezes um produto que agora está nas gôndolas começou na bancada de um laboratório, com uma pesquisa científica. Isso é verdade quando falamos de plant-based, mas principalmente quando falamos das novas tecnologias de carne cultivada e produtos obtidos por fermentação. No contexto brasileiro, as universidades têm um importante papel para as atividades de ciência, tecnologia e inovação. Nós percebemos que, hoje, muitas das startups que existem no Brasil começaram com pesquisadores e que muitos dos CEOs que lideram startups de fermentação e carne cultivada, por exemplo, são pesquisadores.

 

Mas, no geral, quando falamos da possibilidade de empreender para esses profissionais – apesar de eles desenvolverem pesquisas extremamente interessantes e com ótimos resultados – a maioria nem sequer considera esse caminho porque não sabe como migrar da pesquisa para o mercado. Então, uma das nossas maiores preocupações ao produzir o Guia foi a de garantir que os pesquisadores que têm vontade de empreender também se reconheçam nele.

 

Criamos um capítulo inteiro dedicado à integração entre universidade e indústria, com todas as etapas e possibilidades para alcançar resultados positivos com essa conexão. Para continuarmos com a inovação no mercado de alimentos e com o fortalecimento da indústria de proteínas alternativas, é essencial que as universidades e pesquisadores estejam próximos da indústria, olhando para as suas necessidades. Assim, podemos levar essas inovações para o mercado de maneira ágil.

 

A nossa expectativa é que o Guia para Startups não apenas abra portas para novas oportunidades no mercado de proteínas alternativas, mas também encoraje uma nova onda de empreendedores, inclusive pesquisadores, a se verem como potenciais líderes empresariais. O nosso Guia é mais do que um recurso, é um catalisador para transformar ideias e pesquisas inovadoras em empreendimentos de sucesso.

 

Guilherme Vilela, Especialista de Inovação de Engajamento Corporativo do GFI Brasil

 

Junte-se ao Alt Protein Project e descubra como construir uma carreira promissora na área de proteínas alternativas!

Se você é um estudante universitário interessado no setor de proteínas alternativas e gostaria de explorar as oportunidades de trabalho únicas que este setor em ascensão oferece, essa oportunidade é pra você!

Lançado em 2020 pelo GFI, o Alt Protein Project é um movimento global, liderado por estudantes visionários como você, que se dedica a promover educação, pesquisa e inovação no campo das proteínas alternativas. Desde a nossa fundação, crescemos de uma rede de cinco universidades para uma comunidade de 53 grupos ativos com mais de 450 membros. Nosso alcance se estende por dezenas de universidades ao redor do mundo – da Suíça ao Japão, passando por Turquia, Portugal, Brasil e Malásia – unindo esforços para gerar impacto significativo e moldar o futuro da alimentação.

Por que participar? A cada ano, mais grupos de estudantes de diversos países unem-se a nós, trazendo uma diversidade de conhecimentos que vão da biologia sintética à ciência da computação e da engenharia mecânica à filosofia. Essa comunidade multidisciplinar possibilita uma vasta troca de ideias com perspectivas culturais variadas, soluções inovadoras e oportunidades únicas de carreira.

Nossos objetivos incluem:

-Educação e Disseminação: Assegurar que o tema das proteínas alternativas seja incluído nos currículos acadêmicos, proporcionando cursos, treinamentos e eventos relevantes.

-Pesquisa Colaborativa: Facilitar a conexão entre pesquisadores e promover estudos colaborativos que ofereçam soluções multidisciplinares.

-Parcerias Estratégicas: Incentivar colaborações entre laboratórios, universidades e o setor privado para acelerar o desenvolvimento de proteínas alternativas.

Se você precisa de mais inspiração para se juntar ao nosso time, o GFI US fez uma reportagem especial com o Alt Protein Project da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que, em seu primeiro ano, já está transformando a educação sobre proteínas alternativas no campus. Graças ao trabalho do grupo, neste ano 24 alunos e docentes começarão a se envolver diretamente com proteínas alternativas, tanto por meio de aulas teóricas quanto técnicas, através do curso “Agricultura Celular com Foco em Carnes Cultivadas”. O curso semestral vai cobrir uma ampla gama de tópicos científicos, palestras sobre o crescente mercado da carne cultivada e componentes interativos como laboratórios sobre cultura de células, impressão 3D, além de um concurso competitivo de pitching, onde os alunos desenvolverão suas ideias de startup e as apresentarão a um painel dos principais interessados da indústria. “Estamos tentando fazer com que os olhos dos alunos brilhem para a carne cultivada” – Jorge Guadalupe, estudante de PhD da UFMG e CEO do Alt Protein Project, ganhador do prêmio “Best Science Slam” na Alemanha pelo seu projeto de carne cultivada apoiado pelo GFI.

Ficou curioso? Dá uma olhada no Instagram dos grupos do APP da UFMG e da UNICAMP para ver tudo que eles estão fazendo!

Não perca esta oportunidade de fazer parte da próxima geração de profissionais que vão transformar o futuro da alimentação!

Como participar? Inscreva-se aqui no Alt Protein Project.

Se você possui alguma dúvida, entre em contato conosco através do e-mail ciencia@gfi.org para mais informações e suporte.

Estamos ansiosos para ter você em nossa comunidade!

O que podemos esperar para o mercado de proteínas alternativas em 2024?

Apesar de desafios em todo o cenário macroeconômico, de dinâmica geopolítica, financiamento e infraestrutura, a indústria de proteínas alternativas mostra sinais de resiliência. Especialistas do The Good Food Institute Brasil analisam as previsões do setor que irão impulsionar a próxima onda de desenvolvimento rumo à adoção em massa pelos consumidores.

Em 2024, o mercado de proteínas alternativas vai experimentar transformações significativas, impulsionadas por inovações tecnológicas, mudanças nos padrões de consumo e uma crescente conscientização sobre saúde e meio ambiente. Com base em algumas tendências atuais, podemos antecipar algumas direções que este mercado tomará ao longo do ano.

Aumento na variedade de produtos

A diversidade de produtos à base de plantas disponíveis está prevista para aumentar e passar a atender aos consumidores em todos os momentos de consumo, desde o café da manhã, almoço, jantar e lanches, seja com alimentos com apelo de mais saudabilidade a pratos mais indulgentes. Essa expansão na variedade não só abrange uma gama mais ampla de preferências do consumidor mas também facilita a adoção de alimentos plant-based na dieta diária, tornando-a uma opção viável para um público maior.

Parcerias estratégicas e consolidação do mercado

As parcerias estratégicas entre empresas de alimentos e restaurantes podem contribuir com a expansão da presença de opções plant-based nos cardápios. Esses tipos de parcerias são muito comuns em outros países, onde o mercado está mais maduro, e essas experiências mostram que tais colaborações podem aumentar tanto a acessibilidade quanto a visibilidade dessas alternativas. Além disso, é esperada uma consolidação das marcas, impulsionada por uma demanda do varejo, mantendo nas gondôlas os produtos e marcas que ofereçam a experiência sensorial mais próxima do que o consumidor deseja em termos de sabor, textura e aparência dos alimentos.

Avanço tecnológico

O desenvolvimento tecnológico permanecerá um motor de inovação para o setor, trazendo produtos com melhor desempenho sensorial. Espera-se que as inovações em ingredientes e técnicas de processamento ofereçam experiências de consumo mais satisfatórias ao consumidor. Em particular, ingredientes desenvolvidos através de processos fermentativos podem atrair mais atenção do setor, dada sua capacidade de melhorar o perfil nutricional e sensorial dos produtos.

Maior foco em saudabilidade

Empresas já consolidadas no mercado de proteínas alternativas devem continuar a enfatizar a saudabilidade em seus lançamentos e relançamentos. Formulações que atendam à demandas por menos colesterol, sódio, e gordura, assim como a inclusão de ingredientes naturais e familiares aos consumidores, serão cada vez mais comuns. Este foco na saúde reflete uma resposta direta às preocupações do consumidor e uma tentativa de alinhar produtos plant-based com expectativas de benefícios para a saúde e bem-estar.

Preço

A questão do preço continua sendo central, com a indústria se esforçando para tornar os produtos à base de plantas mais acessíveis. Isso passa por mais investimentos em cadeias locais de suprimentos, desenvolvimento de novos ingredientes e processos, além de esforços contínuos para reduzir os custos de produção e logística. Tais iniciativas são essenciais para igualar ou pelo menos aproximar a faixa de preço dos produtos plant-based com a de seus análogos de origem animal, tornando-os uma opção viável para uma gama mais ampla da população.

Desafios para o setor

Apesar das previsões otimistas, o setor enfrenta desafios significativos relacionados aos pontos citados acima: a) conquista de mais consumidores: a adoção de alimentos à base de plantas na dieta é uma dúvida para muitos, especialmente quando consideramos as preocupações sobre a saudabilidade e a percepção nutricional em torno dos alimentos plant-based; b) comparação do preço desses produtos com os de origem animal: é imprescindível encontrar o equilíbrio entre os custos de produção e o poder de compra da população, que enfrenta os efeitos da inflação – inclusive no setor alimentício. As empresas do setor precisam trabalhar para fechar essa lacuna, mostrando que é possível oferecer opções plant-based que não sejam apenas competitivas em preço e qualidade, mas que também sejam percebidas como nutritivas e benéficas para a saúde.

Avanços regulatórios

O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) deve seguir a agenda regulatória sobre produção e rotulagem de produtos plant-based, realizando ao longo do ano audiências públicas para discutir a minuta da Portaria que foi submetida à consulta pública em 2023, e que propõe um marco regulatório para suprir a falta de um regulamento mínimo para produtos análogos de base vegetal

Além disso, com a inclusão das proteínas obtidas por cultivo celular e fermentação no rol de novos ingredientes e alimentos pela Anvisa no final do ano passado, por meio da Resolução RDC Nº 839, devemos observar também neste ano o início das discussões regulatórias sobre essas duas tecnologias, capitaneadas pelo MAPA e pela própria Anvisa. 

Carne Cultivada e Fermentação

Com a Resolução 839 da Anvisa, que orienta empresas sobre a submissão de produtos e ingredientes para comprovação de segurança e a autorização de uso de novos alimentos e novos ingredientes, é esperado que empresas que já estejam desenvolvendo esses novos alimentos apresentem seus produtos e ingredientes para apreciação da Anvisa. Além disso, também devemos ver mais empresas realizando eventos de degustação e de aplicação de produtos para públicos específicos, como investidores e imprensa. Esses são os primeiros passos para a comercialização dessas novas tecnologias em território nacional, resta agora o Ministério da Agricultura regulamentar as questões de registro de produto, rotulagem e inspeção de unidades de produção, um debate que deve começar a ocorrer já este ano.

“O mercado de plant-based em 2024 deve ser caracterizado por uma maior diversidade de produtos, consolidação de marcas, parcerias estratégicas, avanços tecnológicos, um foco renovado na saudabilidade e esforços contínuos para tornar os produtos mais acessíveis. Os avanços regulatórios alcançados no final de 2023 demonstram que o Brasil está se alinhando ao resto do mundo no entendimento de que esse setor vai evoluir rapidamente e que é necessário criar padrões técnicos rígidos para que produtos inovadores possam começar a ser produzidos no país. Este também é o ano que produtos feitos com tecnologias de fermentação e carne cultivada devem chegar ao consumidor. Vamos acompanhar como esses alimentos serão incorporados nos hábitos alimentares do brasileiro”. – Raquel Casselli, diretora de engajamento corporativo do GFI Brasil.

Carne cultivada pode ser considerada halal

O Conselho Religioso Islâmico de Singapura (Majlis Ugama Islam Singapura – MUIS), a única entidade com autorização legal para emitir certificados halal no país, declarou que, sob certas condições, o consumo de carne cultivada é permitido como halal.

O anúncio foi feito em 3 de fevereiro na Conferência Fatwa do MUIS, que incluiu um painel com a cientista Ph.D Maanasa Ravikumar, do GFI Ásia Pacífico. A fatwa, que é um pronunciamento legal sobre um ponto da lei islâmica, afirma que a carne cultivada pode ser considerada halal se as células forem provenientes de animais que os muçulmanos podem consumir e se não houver mistura de componentes não halal no processo de produção.

A fatwa foi emitida depois de mais de um ano de deliberações ponderadas por parte do conselho, durante as quais os especialistas do GFI Ásia Pacífico fizeram inúmeras apresentações técnicas sobre o processo de cultivo de carne a partir de células animais. Os representantes do MUIS também visitaram uma instalação local de produção de carne cultivada e estudaram profundamente o assunto de todos os ângulos da perspectiva islâmica. Ao apresentarem os resultados do seu estudo na conferência, os acadêmicos deixaram claro que acreditam que as muitas vantagens da carne cultivada, especialmente para o meio ambiente e a segurança alimentar, superam qualquer possível desvantagem teórica.

A orientação religiosa sobre  produtos cárneos cultivados passou a ser debatida porque, depois que a Agência Alimentar de Singapura (SFA) aprovou a venda de carne cultivada em 2020, começaram a surgir dúvidas sobre a permissibilidade do consumo para os muçulmanos. Com a comercialização e consolidação desses novos alimentos na região, o MUIS entendeu que seria necessário ter uma posição religiosa sobre se tais produtos poderiam ser consumidos ou não.

O GFI Ásia Pacífico fez a primeira apresentação para o MUIS em julho de 2022, e ao longo dos últimos 18 meses, fortaleceu a relação com o conselho por meio de várias imersões profundas e apresentações sobre a regulação e a ciência por trás da carne cultivada. A parceria foi tão bem sucedida que o MIUS adicionou o logotipo do GFI aos seus banners e usou nossa nomenclatura e dados em suas próprias apresentações. O GFI Ásia Pacífico também estabeleceu contato com o correspondente do MUIS na Indonésia, e eles demonstraram intenção em seguir um princípio semelhante.

Novo estudo do GFI Brasil e UNICAMP mapeia fontes de proteínas vegetais cultivadas no Brasil com potencial para a indústria plant-based

Arroz, aveia, centeio, cevada, milho, sorgo, trigo, canola, amendoim, feijão preto, feijão caupi, feijão mungo, grão-de-bico, lentilha, mandioca, sementes de gergelim e de girassol e batata foram as espécies analisadas, quatro se mostraram mais promissoras

Em parceria com pesquisadores da UNICAMP, o The Good Food Institute Brasil apresenta o novo Estudo de Proteínas Vegetais Nacionais Aplicadas à Produtos Plant-Based, que tem como objetivo explorar a capacidade de matérias-primas cultivadas no Brasil para serem aplicadas em alimentos vegetais análogos.

O trabalho visa impulsionar o aproveitamento dessas fontes, contribuindo para a diversificação das opções de proteínas vegetais disponíveis no mercado nacional. Além disso, a pesquisa busca identificar as matérias-primas mais promissoras em termos de desempenho tecnológico e econômico, visando a sustentabilidade e a viabilidade desses alimentos.

A soja e a ervilha são, atualmente, as principais fontes proteicas utilizadas na produção de produtos cárneos vegetais. No entanto, a biodiversidade brasileira abriga uma vasta gama de matérias-primas vegetais com um potencial ainda inexplorado para a indústria de proteínas alternativas, e essa necessidade de inovação é ecoada pela comunidade empresarial do país: uma pesquisa realizada pelo GFI Brasil em 2021 revelou que 84% das empresas brasileiras consideram prioritário o desenvolvimento de novos ingredientes proteicos de origem nacional. 

Considerando este cenário, o estudo identificou 18 espécies vegetais nacionais com potencial para a indústria plant-based, das quais quatro – milho, mandioca, arroz e batata – se destacaram como as fontes mais promissoras para fornecer ingredientes proteicos para o setor, por serem as variedades que movimentam a economia nacional devido ao volume produzido.

Além de beneficiar diretamente o setor de proteínas alternativas, novas fontes de proteínas vegetais produzidas nacionalmente podem trazer vários outros benefícios para a economia brasileira, como geração de renda extra para os agricultores, fortalecimento da indústria agrícola e alimentícia, redução de preços para os consumidores e promoção de práticas sustentáveis.

Alinhado às tendências globais de consumo e à demanda crescente por alternativas alimentares que sejam mais sustentáveis e respeitem a biodiversidade nacional, este estudo representa um passo na direção de uma indústria brasileira mais sustentável e competitiva no mercado global, beneficiando tanto os consumidores quanto os produtores.

“O mercado de proteínas alternativas no Brasil vem crescendo a cada ano e mostrando todo o seu potencial. Nós acreditamos que estudos voltados para a valorização de subprodutos e resíduos nacionais na obtenção de proteínas são uma estratégia chave para o desenvolvimento de novos ingredientes, contribuindo para a diversificação de fontes para além da soja e da ervilha” – Graziele Karatay, especialista de Ciência e Tecnologia do GFI Brasil.

Acesse o resumo executivo e o relatório completo aqui.

Carne cultivada no Brasil em 2024? 

Confira análise do GFI Brasil sobre a regulação de alimentos feitos a partir de cultivo celular e fermentação de precisão

A Anvisa publicou no dia 18 de dezembro de 2023 a Resolução RDC Nº 839, que regulamenta o registro de alimentos e ingredientes inovadores, incluindo os oriundos de cultivo celular e fermentação. Esse marco regulatório, que entra em vigor a partir do dia 16 de março de 2024, coloca o Brasil em uma posição de destaque internacional, abrindo caminhos para atrair investimentos em inovações alimentares sustentáveis, e nos coloca também cada vez mais próximos de lançar produtos feitos a partir dessas duas tecnologias ainda este ano. 

O regulamento tem alcance amplo, envolvendo os critérios para avaliação de segurança para todos os novos alimentos e ingredientes, que são aqueles sem histórico de consumo por pelo menos 25 anos no país. Isso alcança muitas das diversas inovações que a engenharia de alimentos nos apresenta todos os dias e representa um importante passo na direção da regulamentação da carne cultivada no Brasil.

No regulamento, a agência define todas as etapas e requisitos necessários para as empresas produtoras de carne cultivada e dos seus ingredientes apresentarem dados que garantam que estes produtos são seguros para o consumidor. O documento técnico a ser apresentado para avaliação da agência deverá conter os métodos para triagem, seleção, preparo e manutenção das linhagens celulares, a descrição do processo de produção e da composição do meio de cultivo e a composição nutricional dos produtos obtidos.  

“Este movimento da Anvisa aponta que carne cultivada é segura como alimento se produzida dentro de padrões técnicos rígidos. Para que as empresas possam começar a produzir no Brasil, cabe agora ao Ministério da Agricultura e Pecuária definir os regulamentos complementares, que englobam o registro do produto, suas regras de rotulagem e o regulamento de inspeção das unidades produtivas. Esperamos que isso aconteça ao longo de 2024, porque esse mercado vai avançar rápido no mundo”, diz Alysson Soares, especialista sênior em Políticas Públicas do GFI Brasil.

Com a publicação deste regulamento, a Anvisa se coloca ao lado de outros agentes reguladores, como a EFSA na União Europeia, a parceria USDA/FDA nos Estados Unidos, a SFA em Singapura e a NFS em Israel, como pioneiras em perceber a importância de definir um marco regulatório para carne cultivada baseado em ciência e favorável à inovação e aos investimentos. Foi de fundamental importância para esse posicionamento das principais agências reguladoras globais os estudos científicos desenvolvidos pela Organização Mundial de Saúde e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) nos últimos dois anos.

Sobre isso, o Vice-Presidente de Políticas Públicas do GFI Brasil, Alexandre Cabral, acrescenta que  “é muito significativo que o Brasil, um dos países mais importantes no cenário global da produção de alimentos, afirme que carne cultivada é segura num momento onde em diversos países aparecem ações legislativas na direção de proibir ou limitar o avanço dessa tecnologia”.

O GFI Brasil vem fomentando este debate no Brasil desde 2018, quando promoveu o primeiro seminário dentro do governo brasileiro sobre carne cultivada. De lá pra cá, vem colaborando no tema no Brasil e no exterior, através da participação em grupos especialistas e da publicação de estudos regulatórios e científicos.

Entrevista com Bruce Friedrich: “Construir um sistema alimentar melhor e mais sustentável é um dos desafios mais importantes da nossa época”

Originalmente publicado por Steff Bottinelli no Food Matters Live em 18 de setembro de 2023

Se você se interessa por inovação alimentar e sustentabilidade, Bruce Friedrich é um nome com o qual você deve estar familiarizado. Formado em direito pela Georgetown Law, pela Universidade Johns Hopkins e pela London School of Economics, em 2016 Friedrich fundou o The Good Food Institute (GFI), organização sem fins lucrativos da qual ele é presidente.

Hoje, o GFI tem mais de 200 membros em tempo integral em afiliadas nos EUA, Europa, Índia, Israel, Brasil e Singapura. O trabalho do instituto é focado em políticas, ciência e envolvimento corporativo no setor das proteínas alternativas e visa fortalecer o fornecimento global de proteínas ao acelerar a produção de carne à base de plantas e cultivada, promover práticas agrícolas sustentáveis e melhorar a segurança alimentar e a saúde global.

Além de supervisionar a estratégia global do GFI, Bruce Friedrich escreve regularmente artigos de opinião para veículos como The Wall Street Journal, USA Today, Los Angeles Times e Wired, é convidado frequente em mesas redondas, podcasts, programas de rádio e é um TED Fellow. A palestra TED de Bruce em 2019 foi vista duas milhões de vezes e traduzida para dezenas de idiomas.

Conversei com Bruce para discutir o futuro das proteínas alternativas e o papel dos governos em ajudar a expandir o setor, a recente aprovação da venda de carne cultivada nos Estados Unidos e a posição de países como a Itália em relação à agricultura celular.

Hoje, há mais informações do que nunca sobre os efeitos prejudiciais da produção de carne, peixe e laticínios no meio ambiente e mais empresas de alimentos, restaurantes e redes de fast food estão produzindo ou oferecendo alternativas à base de plantas. No entanto, apesar da maior disponibilidade de produtos veganos no mercado e o aumento de pessoas comprando regularmente, o consumo de carne animal continua aumentando globalmente. O que você acha que será necessário para as pessoas perceberem que precisam reduzir ou parar completamente de consumir produtos de origem animal? Por que ainda há essa desconexão, apesar de toda a informação disponível?

A resposta é simples: as escolhas alimentares da maioria das pessoas são baseadas em dois fatores simples: sabor e preço. Muitos dos problemas que vimos recentemente no mercado de produtos à base de plantas são devido ao fato de que esses alimentos ainda não atendem a essas métricas – não proporcionam os sabores que os consumidores desejam e ainda são caros demais. Isso me leva à sua última pergunta: a carne à base de plantas ainda está em sua infância e, para que esses alimentos se tornem deliciosos e acessíveis ao maior número possível de pessoas, precisamos que os governos invistam na pesquisa e infraestrutura que o setor precisa – assim como fizeram com a energia renovável.

É impossível exagerar a importância disso: a população mundial está prevista para atingir 10 bilhões até 2050, e essas pessoas estão consumindo cada vez mais carne. Será impossível alimentá-las usando um sistema tão ineficiente quanto a agricultura animal industrial, que consome nove calorias de ração para produzir uma caloria de carne de frango.

Os alimentos à base de plantas são frequentemente acusados de serem ultraprocessados. No entanto, sabemos que muitos produtos de origem animal muitas vezes mal contêm os ingredientes que deveriam, mas têm uma grande quantidade de aditivos, enquanto muitos produtos à base de plantas são feitos com apenas alguns ingredientes. Como podemos mudar a percepção dos alimentos veganos?

Acredito que precisamos de uma conversa mais bem informada sobre o que o termo “ultraprocessado” significa. Praticamente tudo o que comemos, desde molho de massas até pão, é processado. O processamento pode ser usado para tornar os alimentos mais seguros, adicionar vitaminas e minerais e preservá-los por mais tempo para evitar o desperdício. O número de ingredientes não determina, necessariamente, a saúde de um produto. A banha tem um ingrediente e um pão integral tem muitos, mas poucos argumentariam que a banha é mais saudável que o pão integral. Comparado à carne produzida convencionalmente, a carne à base de plantas tem menor teor de gordura saturada, menor densidade calórica, mais fibras e carboidratos complexos e nenhum colesterol. Em resumo, é mais saudável.

Muitos gigantes do setor alimentício agora entraram no setor de alimentos à base de plantas, como Nestlé, Unilever… Alguns os acusam de lucrar, outros de normalizar a produção à base de plantas e torná-la mais democrática. Quais são seus pensamentos sobre isso?

Essas grandes empresas de alimentos têm a infraestrutura para ampliar a produção e o conhecimento técnico para impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento, então precisamos que elas entrem no jogo se quisermos melhorar a qualidade, reduzir os custos e fazer com que os alimentos à base de plantas se tornem uma opção padrão para todos. No entanto, a carne à base de plantas pode ser produzida por empresas de todos os tamanhos e formas, adaptadas às necessidades e gostos de diferentes culturas.

Há espaço para todos neste setor, o que significa que as grandes empresas trabalham de mãos dadas com as startups. Para permitir um ecossistema diversificado de empresas onde os produtores independentes podem prosperar, precisamos que os governos financiem pesquisas de acesso aberto, para democratizar as possibilidades de carne à base de plantas – em vez de deixar a inovação para empresas privadas.

Você frequentemente fala sobre a necessidade de subsídios governamentais para ajudar a expandir proteínas alternativas da mesma forma que os governos subsidiaram a energia renovável. No entanto, com algumas exceções, isso ainda não está acontecendo amplamente. O que você acha que será necessário para os governos entenderem a necessidade desse apoio financeiro e assumirem um papel ativo na produção de proteínas sustentáveis?

Nosso relatório sobre o Estado da Política Global constatou que estamos começando a ver lentamente uma mudança nessa direção, com governos em todo o mundo percebendo a importância das proteínas alternativas na sustentabilidade. Na Europa, o governo holandês está liderando o caminho ao anunciar 60 milhões de euros para o maior investimento público já feito em agricultura celular e, no início deste ano, o governo do Reino Unido investiu 13 milhões de libras em um novo centro de pesquisa para investigar como produzir carne cultivada em escala.

No entanto, os governos precisam ir mais longe e mais rápido. Os líderes mundiais precisam observar as inundações, ondas de calor e incêndios florestais que temos visto nos últimos meses e entender a urgência de construir um sistema alimentar mais resiliente e sustentável. Eles precisam perceber que, mesmo se as emissões de combustíveis fósseis fossem eliminadas da noite para o dia, o mundo não atingiria suas metas do Acordo de Paris sem se afastar da agricultura animal convencional. Eles precisam entender a importância de investir em alimentos que possam reduzir as emissões e liberar terras para a restauração da natureza e para uma agricultura mais sustentável.

E, em um nível prático, eles precisam reconhecer o potencial deste setor em termos de custo-benefício: de acordo com o Boston Consulting Group e a Blue Horizon, para cada trilhão de dólares investidos no desenvolvimento de carne à base de plantas, 4,4 Gt de CO2 equivalente poderiam ser economizados – três vezes mais do que o mesmo investimento em outros setores de alto impacto, como transporte ou construção.

Você acha que as escolas deveriam ensinar as crianças sobre agricultura e de onde vem a comida? Por exemplo, ter aulas sobre agricultura industrial e pecuária?

Eu não acho uma má ideia, estou aberto a qualquer sugestão que torne as pessoas mais conscientes dos danos causados pela agricultura animal industrial. Mas eu não acredito que isso vá ao cerne do problema. Organizações vegetarianas e veganas em todo o mundo têm tentado educar as pessoas há décadas sobre por que deveriam comer menos carne, e isso não alterou o fato de que a demanda global por carne deverá crescer mais da metade até 2050.

Você pode fornecer às pessoas todas as informações que quiser, mas enquanto não conseguirmos fazer com que a carne à base de plantas, cultivada ou fermentada tenha o mesmo sabor ou melhor, e seja tão acessível ou mais barata do que a carne convencional, não conseguiremos reverter essa tendência.

A carne cultivada é frequentemente acusada de ser “sintética”, no entanto, a forma como é produzida significa que demanda menos aditivos, como antibióticos, que podem gerar problemas para os humanos, como a resistência aos antibióticos. Alguns governos, como o atual governo italiano, são firmes em afirmar que irão proibir a pesquisa, produção e venda de carne cultivada no país, embora o consumo humano de produtos cultivados ainda não tenha sido legalizado na Europa. Por que você acha que há resistência a essa tecnologia? Entrevistei recentemente o Ministro da Agricultura italiano, e ele afirmou que a carne cultivada poderia acabar com a agricultura animal tradicional na Itália e que a forma como é produzida – em sua opinião – poderia ser potencialmente menos sustentável do que a agricultura tradicional. Por que tantas pessoas e políticos hesitam em considerar a ciência?

A carne cultivada é uma tecnologia transformadora e eu entendo totalmente por que muitas pessoas hesitam quando ouvem falar sobre ela. É por isso que precisamos de conversas abertas, honestas e baseadas em evidências, especialmente com políticos. Pesquisas mostram que a carne cultivada tem o potencial de reduzir as emissões em até 92% em comparação com a carne convencional, além de ajudar a combater a ameaça da resistência antimicrobiana. Também precisamos de diálogo aberto sobre como a eficiência da carne cultivada pode possibilitar práticas agrícolas mais sustentáveis, liberando terras, e os formuladores de políticas públicas precisam trabalhar com comunidades agrícolas para apoiá-las na implementação dessas práticas.

É uma pena ver um país que sempre foi pioneiro em inovação alimentar se afastando da oportunidade de moldar o futuro da carne cultivada. O governo italiano é um verdadeiro ponto fora da curva aqui, tanto em termos de querer interromper a ciência quanto em querer restringir a escolha do consumidor – enquanto outros governos na Europa e no mundo começam a investir. Ninguém gosta de ser regulado sobre o que pode ou não pode comer, e um estudo do GFI Europa do ano passado descobriu que 55% dos italianos estavam dispostos a comprar carne cultivada quando ela chegasse ao mercado. Quando os reguladores europeus aprovam produtos, cabe aos consumidores, e não aos políticos, decidir se desejam ou não consumir carne cultivada.

A carne cultivada foi recentemente aprovada para consumo humano nos Estados Unidos. Na sua opinião, quanto tempo levará para que outros países sigam o exemplo?

Acabamos de receber a emocionante notícia de que a Aleph Farms apresentou as primeiras solicitações europeias aos reguladores suíços e britânicos, e as solicitações também estão sendo analisadas em Israel, Austrália e Nova Zelândia, com outras esperadas até o final de 2023. Não quero fazer previsões e dar uma data – os reguladores precisam do tempo e espaço necessários para realizar seu trabalho e passar aos consumidores confiança sobre esse novo alimento – mas estou confiante de que veremos pessoas em muitos mais países dando suas primeiras mordidas de carne cultivada nos próximos anos.

No que diz respeito à Europa, Suíça e Reino Unido têm uma história de inovação alimentar e consumidores com apetite por produtos mais sustentáveis, então tenho certeza de que veremos filas ao redor do quarteirão quando esse alimento estiver à venda lá, provavelmente em pelo menos 18 meses. Mas é impressionante que as primeiras solicitações para comercialização de carne cultivada da Europa não tenham chegado a Bruxelas. Com a Itália tentando proibir a carne cultivada enquanto outros países investem, a Europa está enviando mensagens mistas para empresas que precisam de certeza para alcançar seu potencial. A União Europeia deve desenvolver uma estratégia coerente para apoiar o setor de proteínas sustentáveis e garantir que os processos regulatórios sejam claros.

Em muitas entrevistas, você disse que se quisermos mudar o sistema alimentar, precisamos trabalhar dentro do sistema. Você acha que isso está acontecendo rápido o suficiente? O que mais precisa ser feito?

A resposta curta é não. Estamos vendo alguns exemplos excelentes, como a empresa de laticínios Arla Foods trabalhando com a empresa de biotecnologia Novozymes para desenvolver ingredientes usando fermentação de precisão, e a Bitburger Brewery fornecendo subprodutos da produção de cerveja para a alemã Mushlabs alimentar seu processo de fermentação. Mas precisamos urgentemente ver mais grandes empresas de alimentos entrando e fornecendo a infraestrutura e o peso de P & D necessários para impulsionar as proteínas alternativas para o mainstream.

Para que isso mude, as empresas precisam entender os enormes benefícios de se envolver em proteínas alternativas – há uma grande oportunidade em termos de explorar novos mercados e impulsionar suas credenciais ESG. Nossos relatórios recentes de análise de fabricação de proteínas à base de plantas e obtidas por fermentação fizeram algumas excelentes sugestões para empresas, como a possibilidade de modernizar edifícios e equipamentos existentes como uma maneira viável e acessível de ganhar escala rapidamente.

Atualmente, várias startups estão trabalhando no campo de carne cultivada. Algumas provavelmente se tornarão comerciais e viáveis, enquanto outras não vão conseguir – assim como em qualquer outro setor. Você acha que veremos um dia em que a carne cultivada se torne uma concorrente direta da carne derivada de animais abatidos?

Pesquisas da CE Delft mostram que até 2030 os custos de produção da carne cultivada podem cair drasticamente, se aproximando do nível em que ela possa competir com a carne convencional. Mas, para que isso aconteça, os setores público e privado precisarão investir valores significativos em pesquisa e desenvolvimento para superar os obstáculos existentes, que vão desde aumentar a disponibilidade de linhagens celulares até reduzir o custo dos meios de cultura celular – o caldo nutritivo de que as células precisam para crescer – e construir cultivadores maiores e mais eficientes.

Construir um sistema alimentar melhor e mais sustentável é um dos desafios mais importantes de nossa era e, se quisermos aproveitar essa enorme oportunidade, governos e empresas precisam apoiar esse esforço e investir.