Pandemia revela um dos grandes desafios da humanidade: como alimentar quase 10 bilhões de pessoas?

Passados quase cinco meses de isolamento social, fica evidente que o mundo como conhecemos não será mais o mesmo. Estamos diante de um fato histórico que determinará a forma de organizar e manter a vida neste planeta. Evidentemente, desafios antigos permanecem e se intensificam diante de um problema que afeta a todos, direta ou indiretamente. Dentre eles o de como alimentar de forma segura quase 10 bilhões de pessoas até 2050 em um cenário onde 820 milhões já passam fome. O que vamos comer e como vamos produzir esses alimentos?    

Segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU) será necessário aumentar a produção de alimentos em 70% para que todos tenham acesso à comida. Essa nova realidade impacta especialmente a demanda por carne, que exigirá a criação de ainda mais animais. Para que isso seja possível, muitas vezes é necessário confiná-los em espaços pequenos, pouco arejados e sem espaço para movimentação adequada. O número de animais em proximidade, com contato entre diferentes espécies e as condições citadas, favorecem a transmissão de patógenos entre espécies, podendo levar a eventual transmissão dessas doenças para seres humanos. 

O Covid-19 surgiu devido ao consumo e comercialização de animais silvestres, assim como a AIDS, Ebola e outras pandemias. Ao mesmo tempo, há patógenos que surgem nas produções de animais para consumo, como é o caso da gripe aviária, gripe suína e da gripe espanhola. De acordo com a OMS, 60% das novas doenças infecciosas se originaram em animais. Esse mesmo estudo ainda cita que a produção de alimentos tem sido uma das mais importantes rotas de transmissão dessas doenças, também pelo uso intensivo de antibióticos na produção animal. 

Por fim, ainda há um grande risco de insegurança alimentar (falta de comida) associado às pandemias animais. No ano passado, a Peste Suína Africana dizimou populações de porcos na China, fazendo com que esse país tivesse que comprar alimentos no exterior, o que gerou aumento do preço da carne no mundo todo, inclusive no Brasil. De acordo com o jornal britânico The Guardian, mesmo abatendo todos os porcos vivos no mundo não seria possível suprir a demanda chinesa, tamanha foi a falta de carne causada pela pandemia animal. Em maio de 2020, a Índia já havia reportado mais de 11 surtos da mesma doença, que no momento está sendo considerada o maior impacto na produção de proteína global (maior do que o Covid-19, mesmo tendo acontecido no mesmo período).

Por isso, cada vez mais os produtores, indústria, governos e cientistas se unem para elaborar soluções que possam permitir o aumento da produção global de proteínas de forma mais sustentável do ponto de vista ecológico e, acima de tudo, sem colaborar para o desenvolvimento de novas pandemias, seja em humanos ou animais. Dentre os possíveis podemos citar melhorias nas práticas de manejo, estudos para aumento sustentável de produtividade no campo, implementação de novas tecnologias agrárias e, também, o desenvolvimento de novas fontes de proteína. Por isso a indústria de proteínas alternativas surge com tanta força: é um dos caminhos necessários para o futuro da alimentação no mundo. 

Essa indústria não tem mais como objetivo atender somente uma demanda de nicho do mercado vegetariano. O objetivo agora é entregar alimentos que tenham as características de sabor, aroma e textura daqueles que não consumidos em larga escala, porém produzindo-os por uma tecnologia inovadora. Daí surgem os substitutos vegetais análogos à carne ou mesmo a tecnologia de carne cultivada a partir de células: o objetivo é permitir que as pessoas continuem comendo o que gostam, mas fazer essa comida (ou parte dela) com uma nova tecnologia.

Nessa lógica, o Brasil pode assumir uma posição de liderança global, pois temos tudo o que é necessário para o bom desenvolvimento do setor: um agronegócio forte, estrutura logística para distribuição global de produtos, clima favorável à produção e um enorme capital intelectual ligado à produção de alimentos. Já somos chamados de “o celeiro do mundo”, pois conseguimos desenvolver tecnologias que colocaram nosso agro à frente de outros países. Agora, devemos seguir nesta mesma rota e investir nas tecnologias que serão imprescindíveis para o futuro, garantindo a manutenção de nossa liderança e da competitividade dos negócios brasileiros. 

Soluções viáveis já estão em curso e essa é a hora de investir consistentemente para que o agronegócio brasileiro consiga atender à demanda global por novas fontes de proteína e, com isso, liderar o mundo no sentido de alimentar todas as pessoas, minimizar danos ambientais e diminuir possibilidade de novas pandemias.

Proteínas Alternativas Vegetais

Diferentes instituições de pesquisa brasileiras já estão realizando estudos de viabilidade de outras fontes de proteína e produtos vegetais. A EMBRAPA, por exemplo, está pesquisando sobre a fibra de caju, e proteína de feijão, enquanto a UNICAMP iniciou estudos para a obtenção de proteínas a partir da folha da mandioca. Esses são só alguns exemplos dentre inúmeras pesquisas que já ocorrem em instituições espalhadas por todo o Brasil. Além disso, as maiores empresas brasileiras de carne e alimentos em geral investiram no mercado de proteínas alternativas consistentemente no último ano, juntando-se a uma série de startups que já estavam sendo bem sucedidas no setor.

Por fim, produtores estão aproveitando essa nova tecnologia para expandir seus negócios e criar novas fontes de renda. Essa é a chave para entender o setor de proteínas alternativas: não se trata de uma ameaça ao produtor rural ou às empresas de carne, mas sim de uma oportunidade para rentabilização desses negócios. O produtor que cria gado pode agora plantar grão de bico e se rentabilizar vendendo a proteína que é utilizada como matéria prima da indústria de substitutos vegetais análogos à carne. As cooperativas de leite podem facilmente produzir leite vegetal utilizando pequenas áreas das fazendas para plantação de, por exemplo, aveia ou soja. 

Os sinais de uma guinada nessa direção já puderam ser vistos nos primeiros meses da pandemia. Na segunda semana de abril, as vendas de análogos vegetais, que são produtos que mimetizam os de origem animal, subiram 200% nos Estados Unidos em comparação com o mesmo período do ano passado. 

Carne cultivada a partir de células  

Outra tecnologia que aparece como possível solução para os desafios citados é a chamada “carne cultivada”. Trata-se de uma nova forma de se produzir carne, que chegará em breve ao mercado, com lançamentos previstos para 2021. Utilizando técnicas de reprodução de tecidos, os pesquisadores nutrem as células e fazem com que se multipliquem em um ambiente fabril controlado. No final do processo, a carne obtida é idêntica aquela que consumimos tradicionalmente, mesmo em nível celular. Porém, ao invés de ser produzida pela criação e abate de um animal, essa carne é feita pela reprodução industrial dos tecidos desse animal.

Por ser produzida em ambiente controlado, a tecnologia da carne cultivada diminui a possibilidade de contaminação por microrganismos comuns nas linhas de processamento dos frigoríficos, como a salmonella no frango, por exemplo, ou por questões ambientais, em caso de contaminação por agrotóxicos. 

Além de permitir com que o consumidor siga comprando o alimento que gosta e está acostumado, o meio ambiente também sai ganhando: o processo fabril tem impacto ambiental consideravelmente menor, pois consome menos água e demanda menos espaço para entregar o produto final, inclusive em locais nos quais hoje não é possível produzir carne. Por fim, quase não contribui com emissão de gases que aquecem o planeta. 

Alimentar um mundo super populoso com recursos finitos se mostrou um dos maiores desafios a ser enfrentado no pós-pandemia. Felizmente, a visão de como fazê-lo e os recursos para viabilizá-lo já se tornaram claros mesmo antes de a pandemia estar sob controle. A construção do mundo em que queremos viver, onde todos tenham acesso à alimentação de forma segura, já começou.

Texto por Gustavo Guadagnini, diretor executivo do The Good Food Institute