Olhando para o futuro no Dia Internacional do Trabalhador

Neste  1º de maio de 2021, muitos países celebram o Dia Internacional do Trabalhador. A data, que nasceu há mais de 130 anos para reivindicar melhores condições de trabalho, continua relevante nos dias de hoje, e nos convida a refletir, também, sobre as profissões que ganharão destaque ou que serão cada vez mais necessárias em um mundo pós-pandemia.

Nesse contexto, o setor de proteínas alternativas ganha destaque, especialmente por propor soluções para uma cadeia de produção de alimentos mais saudável, segura, sustentável e com capacidade para alimentar as cerca de 10 bilhões de pessoas que o mundo terá até 2050. Pensar sobre isso é fundamental, pois, segundo a ONU, alimentar essa população da forma como fazemos hoje, demandaria aumentar a produção de comida em 70%, o que certamente exigirá ainda mais recursos de um planeta já em colapso.  

Investimentos e Geração de Empregos 

Os benefícios de se investir cada vez mais no setor de proteínas alternativas são vários, a começar pelo desenvolvimento econômico. Dados divulgados pelo The Good Food Institute (GFI) revelam que, mundialmente, 2020 foi um período recorde de investimentos em empresas que produzem alternativas sustentáveis para alimentos convencionais de origem animal, incluindo empresas globais de carne, ovo e laticínios à base de vegetais; empresas de carne cultivada; e empresas de fermentação de proteínas alternativas. Esse aumento de investimentos demonstra que o mercado aposta no crescimento do setor de proteínas alternativas, mesmo num cenário em que a pandemia dificultou o ritmo de crescimento que vinha acontecendo. A pandemia diminuiu a renda das famílias e também faliu muitos restaurantes, o que impacta diretamente a indústria de alimentos. Por outro lado, o aumento sinaliza um interesse crescente por investimentos em sustentabilidade e inovação tecnológica.

O GFI analisou a atividade de investimento nessas indústrias utilizando a plataforma PitchBook Data e mostrou que as empresas globais de proteínas alternativas receberam US $3,1 bilhões em investimentos divulgados em 2020. Esse valor é mais de três vezes maior do que o USD $1 bilhão levantado em 2019 e quatro vezes e meia maior do que os USD $694 milhões levantados em 2018. 

De acordo com uma pesquisa da Organização Internacional do Trabalho em parceria com o Banco de Desenvolvimento Inter-Americano, o setor de proteínas alternativas pode gerar até 19 milhões de novos empregos na América Latina na próxima década. Embora o estudo faça a ressalva de que nessa transição cerca de 3 milhões de pessoas deverão perder os seus empregos, o saldo ainda será muito positivo.  Por se tratar de um segmento em crescimento, cria oportunidades para a formação de novos profissionais, produção de novas matérias-primas no campo, unidades de negócios em indústrias já estabelecidas, startups, foodtechs e grupos acadêmicos de pesquisa e desenvolvimento focados em proteínas alternativas. 

O mercado está pronto para incorporar essas inovações. Em 2018 o The Good Food Institute Brasil realizou uma pesquisa e descobriu que 29% das pessoas já haviam diminuído o consumo de carnes, 70% delas por motivos de saúde ou restrições alimentares – o que faz bastante sentido, uma vez que, segundo pesquisa da Food Frontier, proteínas vegetais tem, em média, quantidade de proteína maior ou comparável, menos gordura e consideravelmente menos gordura saturada, é boa fonte de fibras, são livres de colesterol e possuem quantidade de sódio menor ou comparável. Já em em 2020, o número cresceu para 50% da população. Os flexitarianos, como são chamados, optam por diminuir o consumo de produtos de origem animal, mas sem abandoná-lo completamente. A expectativa é que esse número continue a crescer, mas para isso, além de apelos para a saúde, estes novos produtos precisam entregar uma experiência igual ou melhor à proporcionada pelos produtos tradicionais.

Novas profissões e campos de pesquisa

Com esse desafio em mãos, a indústria e a academia vão precisar se aproximar ainda mais e trabalhar em sintonia na criação de soluções tecnológicas que garantam a experiência sensorial que o consumidor deseja, garantindo, ainda, produtos saudáveis, seguros e sustentáveis. Serão necessários profissionais altamente capacitados em produzir alimentos a partir do cultivo celular, fermentação e de vegetais. 

Para o pesquisador da Embrapa Dr. Luciano Paulino da Silva, “as equipes atuantes na área de fabricação digital de alimentos à base de proteínas alternativas deverão ser multidisciplinares e formadas por pessoas que tenham a inovação por princípio fundamental e pensem fora da caixa.” Ele considera a impressão 3D de proteínas alternativas uma tecnologia emergente promissora, que oferece uma série de benefícios como a mimetização de características sensoriais de alimentos e um maior controle sobre as características nutricionais. Alguns profissionais envolvidos neste processo são: 

  • Designers 3D –  dedicados a aperfeiçoar a printabilidade das características desejadas nos alimentos;
  • Engenheiros de alimentos e de produção –  para escolher ingredientes e equipamentos a serem utilizados no processo;
  • Biotecnologistas – para obter células e fibras na fabricação digital de fontes de proteínas alternativas;
  • Nanotecnologistas e cientistas de materiais  – para finalização do produto.

A professora associada da Universidade Federal do Paraná, Dra. Carla Molento, destaca a área de Zootecnia Celular, com especialistas em genética celular, nutrição celular, ambiência celular e também profissionais empreendedores para produção dos insumos, como por exemplo agronomia voltada à nutrição celular, ingredientes para meios de cultura, engenheiros especializados em biorreatores, onde são produzidas as carnes cultivadas a partir de células animais, e fermentadoras de precisão. 

Para ela, também é evidente a necessidade de profissionais voltados à tecnologia de produtos de origem animal, como veterinários e zootecnistas, para empregarem sua expertise na geração de novos produtos e prestarem serviços de inspeção e controle de qualidade. “Novas formas de trabalho surgirão”, conclui. A Dra. Caroline Mellinger, pesquisadora da Embrapa, concorda: “Automação e criatividade são questões importantes. Mas as profissões que já existem vão continuar sendo importantes na reinvenção de toda a cadeia alimentar.”.

Para o professor Dr. Luismar Porto, fundador da Tubanharon Engenharia de Processos, as áreas estratégicas no futuro serão Engenharia Tecidual, Biologia Sintética e Engenharia Metabólica. Ele explica que os avanços e a integração dessas áreas serão fundamentais para reduzir o preço final da carne cultivada, por exemplo. Ele ainda destaca profissões tradicionais que continuarão a ganhar espaço: biólogos de células-tronco, engenheiros de proteínas e enzimas, bioquímicos  e engenheiros de biorreatores.

Alocar fundos para pesquisas de alto impacto, construir comunidades globais de cientistas, estudantes, empresários, formuladores de políticas públicas e cultivar talentos são etapas importantes para ajudar a indústria de proteínas alternativas a realizar seu potencial. Com isso em mente, o GFI disponibiliza um Diretório de Pesquisa Colaborativa e dá suporte financeiro a pesquisadores por meio do Programa de Incentivo à Pesquisa, uma vez que esse setor é baseado em inovação tecnológica e demanda pesquisas acadêmicas pioneiras.

“Queremos superar os desafios técnicos do setor de proteínas alternativas por meio da pesquisa de acesso aberto e acelerar a taxa de progresso em toda a indústria deste segmento. Por isso, o GFI se dedica ao avanço da pesquisa de acesso aberto e à criação de um ecossistema voltado para o desenvolvimento científico e acadêmico desse setor. As pesquisas em carne cultivada, produtos feitos à base de plantas e obtidos por processos de fermentação geram avanços na oferta de produtos, impactam positivamente o clima e a saúde global, além de criar postos de trabalho para novos talentos e profissionais que querem reposicionar as suas carreiras”, conclui a diretora de Ciência e Tecnologia do GFI Brasil, Dra. Katherine de Matos.