Neste Dia Internacional das Mulheres, GFI Brasil destaca o protagonismo feminino em iniciativas que devem acelerar inovações no setor de proteínas alternativas

por Vinícius Gallon

Em um campo emergente como as proteínas alternativas, o financiamento de pesquisa tem um papel crucial. Estudos sobre carne cultivada, alimentos feitos de plantas e obtidos por fermentação geram avanços na oferta de produtos saborosos, acessíveis e seguros, além de impactar positivamente o clima, a saúde global, a oferta de alimentos para toda a população e o respeito aos animais. Identificar lacunas de conhecimento e articular soluções tecnológicas requer uma compreensão profunda da ciência em proteínas alternativas e em campos relacionados. E no Brasil, quem tem assumido esse desafio, em grande número, são as mulheres.

Como uma organização sem fins lucrativos, o GFI se dedica ao avanço da pesquisa de acesso aberto em proteínas alternativas e à criação de um ecossistema de pesquisa e formação. O Programa de Incentivo à Pesquisa distribui recursos para apoiar cientistas a fim de garantir a viabilidade comercial de seus trabalhos. Na chamada de 2021, o objetivo foi o de produzir conhecimento e tecnologia para replicar cortes inteiros de carne, como bife, peito de frango, costeleta de porco, filé de salmão e frutos do mar. Foram selecionados 22 projetos, dos quais 5 são brasileiros, e, desses, 3 liderados por mulheres.  

Conheça as pesquisadoras brasileiras contempladas pelo Programa de Incentivo à Pesquisa

No campo de alimentos híbritos, a Dra. Aline Bruna da Silva, professora no departamento de engenharia de materiais do CEFET-MG, lidera uma pesquisa para produzir cortes inteiros de carne de frango através da combinação de tecnologias de cultivo celular e plant-based. O produto final deverá ter textura e sabor de frango convencional, mas com gordura mais saudável do que a de origem animal. 

Já a pesquisa da Dra. Olga Lúcia Mondragón-Bernal, pesquisadora da Universidade Federal de Lavras, vai desenvolver protótipos de análogos de peixe (semelhantes a salmão, truta e tilápia) utilizando proteína texturizada de cogumelo ostra. A equipe da cientista vai utilizar como matéria-prima cogumelos de agricultura orgânica e familiar da própria região de Lavras (MG) e pretende estabelecer parcerias para transferir parte da tecnologia para esses pequenos produtores. 

A Dra. Vivian Feddern, pesquisadora da Embrapa Suínos e Aves, lidera uma pesquisa para produzir pedaços inteiros de carne cultivada de frango (similar ao filé de peito desossado) a partir de células musculares de frango cultivadas em scaffold, além de estabelecer uma linhagem de células-tronco de frango que poderão ser expandidas, semeadas e diferenciadas em novos tipos de scaffolds para produção de cortes inteiros de carne. 

Neste mesmo Programa, mas na edição de 2019, o Brasil foi contemplado com três financiamentos, todas para pesquisadoras mulheres: Dra. Ana Carla Sato, da Unicamp (folha de mandioca), Dra. Ana Paula Dionísio, da Embrapa (fibra de caju), e Dra. Caroline Mellinger, da Embrapa (feijão carioca). As três pesquisas estão avançando para a fase final e já colhem excelentes resultados. 

Em outra iniciativa, desta vez do GFI Brasil, o fomento visa financiar estudos sobre o uso de espécies nativas que podem ser base para análogos vegetais de produtos de origem animal. A expectativa é que espécies da Amazônia e do Cerrado – babaçu, baru, castanha do Brasil, cupuaçu, guaraná, macaúba e pequi – sejam fonte de proteínas, pigmentos e fibras que integrem outras matrizes já usadas na indústria. Das 14 pesquisas contempladas pelo Programa Biomas, 7 são lideradas por mulheres. 

Conheça as pesquisadoras contempladas pelo Programa Biomas

Focando suas pesquisas no baru, tanto a Dra. Ana Paula Rebellato, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), quanto a Dra. Mariana Egea, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano (IFGoiano), visam obter ingredientes para a produção de alimentos feitos de planta. Enquanto a primeira pretende obter ingrediente extrusado com elevado teor proteico e rico em fibras a partir do subproduto da extração do óleo da amêndoa do baru, a segunda quer obter ingredientes a partir de resíduos do produto nativo. 

A Dra. Luiza Helena Meller da Silva, da Universidade Federal do Pará, vai desenvolver ingredientes a partir dos resíduos do processamento do cupuaçu e do guaraná para aplicação em produtos plant-based. Já a Dra. Fabiana Queiroz, da Universidade Federal de Lavras – MG, pretende obter ingredientes a partir da extração integral da polpa, amêndoa e casca do pequi para aplicação em produtos vegetais análogos. Para conhecer as outras três pesquisadoras e seus temas de pesquisa, acesse o site

Proteínas Alternativas: um campo com protagonismo feminino

Para além dos programas de incentivo do GFI, que financiam pesquisas em carne cultivada lideradas por mulheres, também há protagonismo feminino em outras iniciativas. A começar por nossa própria equipe de ciência e tecnologia, formada 100% por mulheres. Liderada pela Dra. Katherine de Matos, a equipe conta, ainda, com Ma. Cristiana Ambiel, Dra. Amanda Leitolis, Dra. Luciana Fontinelle, Dra. Lorena Silva Pinho, e a doutoranda Mariana Demarco. 

Também contribuindo com a produção de conhecimento e formação, a Universidade Federal do Paraná lançou, em 2020, a primeira disciplina brasileira sobre carne cultivada ofertada em um programa de pós-graduação. Coordenado pela professora Dra. Carla Molento, a disciplina  Introdução à Zootecnia Celular foi criada com o objetivo de colaborar na formação de novos profissionais para atuarem no mercado de carne cultivada. Graduada em medicina veterinária pela UFPR, a Dra. Carla tem se dedicado especialmente a iniciativas que promovem o bem estar-animal, coordenando, ainda, o LABEA – Laboratório de Bem-Estar Animal da mesma universidade.

Outro nome que vem despontando no setor é o da pesquisadora Dra. Bibiana Matte, diretora científica da Núcleo Vitro, que está desenvolvendo a primeira carne cultivada brasileira, com investimento de R$ 5 milhões disponibilizados pelo edital da Fapergs (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul). Dra. Bibiana é, ainda, fundadora da primeira startup de carne cultivada do país, a Ambi Real Food.  

No final de 2021, a JBS anunciou um investimento recorde de US$ 100 milhões no mercado de carne cultivada. Com o valor, a empresa firmou acordo para aquisição do controle da empresa espanhola BioTech Foods, investimento na construção de uma nova unidade fabril na Espanha, além da implantação do primeiro Centro de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) em Proteína Cultivada do Brasil, que será co-liderado pela Dra. Fernanda Berti, que tem passagem pelo Research Institute I3Bs, e criou uma startup incubada no Vale do Silício (EUA) que desenvolve produtos baseados em medicina regenerativa e células-tronco para o tratamento de animais na Europa. Também na JBS, a Dra. Roberta Ferreira é cientista sênior, atuando também com carne cultivada.

Quando o assunto é empreendedorismo, elas também não ficam para trás

Eleita pelo MIT como uma das jovens mais inovadoras da América Latina, Amanda Scarpa é fundadora da N.Ovo Plant-Based, primeira startup brasileira a criar produtos para substituir ovos em receita, omelete e molhos. Co-fundadora do Grupo Planta, hub da indústria plant-based que promove a alimentação e o empreendedorismo consciente, Daniele Zuckerman, que também é embaixadora do GFI Brasil, é uma das maiores promotoras de uma alimentação a base de plantas. 

Uma das principais vozes do veganismo no Brasil, a autora, apresentadora, cantora e ativista Alana Rox, também é proprietária do restaurante Purana, um dos mais badalados de São Paulo, além de grande entusiasta do mercado de proteínas alternativas. Coordenadora do departamento de saúde e nutrição da Sociedade vegetariana Brasileira, com vasta experiência em alimentação vegetariana e sustentabilidade, Alessandra Luglio também é consultora para o desenvolvimento de produtos feitos de planta para diversas marcas brasileiras. 

Outro restaurante também muito conhecido dos paulistanos, o Pop Vegan Food, é co-liderado pelas empreendedoras Carol Caliman e Monica Buava. À frente da diretoria de Marketing da Incrível Seara, uma das maiores linhas de produtos plant-based do Brasil, está Camille Lau, que também atuou em função semelhante na The Vegetarian Butcher, linha de produtos feitos de planta da Unilever. Mari Dalla Vecchia é fundadora da Mr. Veggy, 1ª marca brasileira a oferecer um hambúrguer plant-based custando menos de dois reais. Nathália Pires é co-fundadora da NoMoo, startup com mais de dez produtos lácteos vegetais que recebeu sua primeira rodada de investimentos (R$10 milhões) da DXA no ano passado. Também no mercado de laticínios vegetais, Cintia Lombardi é co-fundadora da BasiCo, que já conta com oito produtos no portfólio e alimenta diversas marcas do food service. 

Também não poderíamos deixar de citar outras mulheres que têm apoiado em suas áreas de atuação o desenvolvimento estruturado do setor de proteínas alternativas: Eloisa Garcia, Diretora Geral do Ital, eleita pela Forbes como uma das mulheres mais poderosas no campo, Ana Lúcia de Paula Viana, Diretora do Dipoa-MAPA, Thalita Antony de Souza Lima, Gerente-Geral de Regulamentação e Boas Práticas Regulatórias da Anvisa, Tatiana Schor, Secretária-executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, além de Raquel Casselli, Ana Carolina Rossetini, Camila Lupetti, Karine Seibel, Jaqueline Gusmão e Mariana Bernal, que integram, áreas do GFI Brasil.

Neste Dia Internacional das Mulheres, queremos celebrar e agradecer à todas as profissionais que tem promovido as principais transformações no setor de proteínas alternativas. Além de serem presença significativa na liderança de empresas, startups e no governo, também são elas que empreendem a maior parte das pesquisas em carne cultivada, alimentos feitos de plantas e obtidos por fermentação no Brasil.

Das 22 pesquisas apoiadas pelo GFI, 16 são lideradas por mulheres. Das 17 pessoas que atuam no GFI Brasil, 12 são mulheres, 70% em cargos de liderança. Sabemos que a equidade de gênero ainda tem um longo percurso para deixar de ser utopia, para se tornar realidade. Mas, em nosso setor, temos bons motivos para acreditar que um cenário mais diverso e equitativo é possível. À todas as mulheres, desejamos mais conquistas de direitos, espaços e reconhecimento. Contem sempre com o GFI Brasil.

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