84% das empresas brasileiras gostaria de ter mais matérias-primas nacionais para produzir produtos vegetais

Texto: Bruna Corsato

Revisão: Camila Lupetti, Cristiana Ambiel, Katherine de Matos e Vinícius Gallon

Pensando em acelerar a inovação na indústria de proteínas alternativas, o GFI realizou a pesquisa “Oportunidades e Desafios na Produção de Produtos Feitos de Plantas Análogos aos Produtos Animais”. Através da contribuição de 21 empresas atuantes nas indústrias do mercado de produtos vegetais no Brasil atualmente, foram identificados os maiores desafios no desenvolvimento de produtos à base de plantas análogos aos produtos animais com a qualidade, preço e as características sensoriais buscadas pelos consumidores. 

A partir das informações compartilhadas, o GFI Brasil identificou sete linhas de pesquisa prioritárias para o avanço do mercado de produtos vegetais no Brasil, sendo as principais: 

  • O desenvolvimento de matérias-primas e ingredientes nacionais foi apontado como a maior prioridade entre as empresas, com 84% das respostas. A oferta de opções nacionais no mercado brasileiro ainda é limitada, com a soja sendo predominante. A dependência da importação eleva os custos de produção, impactando o preço final do produto na prateleira e o acesso de muitos brasileiros aos produtos análogos vegetais.  

Entretanto, a biodiversidade do Brasil possui uma grande variedade de matérias-primas com potencial para se tornar fonte de proteína para a indústria plant-based, como feijões, arroz, aveia, centeio, milho, amendoim e mais. A pesquisa científica é o elo que falta para transformar esse potencial em realidade. Pesquisas adicionais são necessárias para definir os processos de extração adequados para cada uma das proteínas, além de melhorias das funcionalidades proteicas e nutricionais, o que proporcionará um produto final de maior qualidade e menor custo. 

  • Matérias-primas e ingredientes com melhores funcionalidades tecnológicas vieram em segundo lugar, com 72% das empresas apontando essa como uma alta prioridade. O consumidor busca nos produtos vegetais cada vez mais a experiência sensorial do produto tradicional, ou seja, que o queijo derreta e gratine, que o sorvete seja cremoso, que o hambúrguer tenha suculência.  

É possível entregar essas características aprimorando as funcionalidades das proteínas, gorduras e carboidratos e também através da ação de certos aditivos. Para chegar na experiência sensorial desejada pelos consumidores, é fundamental ter estudos de desenvolvimento de ingredientes com funcionalidades para dar estrutura aos produtos, uma vez que os agentes de textura disponíveis atualmente possuem desempenho incompatível com as necessidades do mercado. 

  • Diversificar a oferta de ingredientes que mimetizam o sabor característico dos produtos animais em análogos de plantas veio em seguida, com 68% das respostas. Este dado reflete uma demanda vinda diretamente do mercado, que busca sabor, aroma e textura igual ou melhor do que do produto tradicional nos alimentos vegetais. 

As proteínas vegetais ainda apresentam forte sabor residual, o que torna mimetizar completamente o produto animal um grande desafio para a indústria. A construção do sabor dos produtos deve ser feita de forma que resulte em maior naturalidade no produto final. Portanto, o desenvolvimento de ingredientes que atendam a essas demandas representa grande oportunidade para as empresas do setor. 

  • Os produtos com apelo clean  label têm sido cada vez mais valorizados e procurados pelos consumidores, como reflexo da alta preocupação com a saúde entre os brasileiros. Somos o quarto país no ranking de consumo de alimentos saudáveis, um setor que tem crescido 25% ao ano desde 2009, segundo a Euromonitor. Como reflexo dessa demanda de consumo, pesquisar novos processos e ingredientes para obter produto final com apelo clean label foi apontado por 64% das empresas como prioridade. 

Atualmente, os produtos vegetais ainda possuem formulações complexas e com muitos ingredientes com os quais o consumidor não é familiarizado,  tornando, muitas vezes, os rótulos difíceis de serem compreendidos e criando barreiras para a compra. Por isso, é necessário simplificar as formulações para ir ao encontro dessa vontade do consumidor. Uma possibilidade de viabilizar esse esforço é realizar pesquisas que desenvolvam alternativas para substituir aditivos, aromas e corantes modificados por ingredientes conhecidos pelo brasileiro. 

  • Ampliar soluções para obter produto final com características nutricionais desejadas foi indicada como uma necessidade por 64% dos respondentes. 

Dentro do contexto brasileiro, a maioria dos consumidores de produtos feitos de plantas é composta por pessoas que reduzem o consumo de produtos animais, com esse grupo chegando a 49% da população em 2020, de acordo com pesquisa do GFI Brasil.. 

Por isso, é importante que o produto final atenda à demanda desse grupo e entregue as características de saudabilidade desejadas. Ou seja, produtos que mimetizam o tradicional com valor nutricional equiparado ou superior ao do produto de origem animal. Em um mercado cada vez mais competitivo, a qualidade nutricional pode ser um dos principais diferenciais competitivos. Por isso, é importante que a indústria se dedique a aprimorar características nutricionais como diminuir o teor de gordura e sódio, aumentar o teor de proteína e fibras, etc. 

  • Também com 64%, duas prioridades similares: aumentar a oferta de ingredientes que mimetizam a textura característica e que mimetizam a gordura dos produtos tradicionais. Esses itens reforçam a necessidade de matérias-primas e ingredientes que tenham desempenho compatível com as necessidades do mercado para mimetizar os produtos de origem animal. Replicar o sabor e textura da gordura animal ainda é particularmente desafiador para a indústria, assim como as propriedades nutricionais do ômega-3 encontrado em frutos do mar e peixes. Conforme a demanda por carne e frutos do mar vegetais cresce, novas fontes e métodos de produção serão necessários para garantir o perfil sensorial esperado pelo consumidor. 

Desenvolver produtos que vão ao encontro dessa combinação de fatores representa tanto uma grande oportunidade quanto um grande desafio para o futuro da indústria. A partir dessas informações, nossos especialistas identificaram as seguintes áreas de oportunidade para o setor de proteínas alternativas: 

Textura – proteínas com texturas diferenciadas e melhores funcionalidades, tecnologias adequadas para formação de fibra, retenção da gordura e umidade (suculência e sensação de preenchimento). 

Sabor – reduzir sabor residual de proteínas vegetais, maior naturalidade, aromatização natural. 

Experiência de consumo – derreter, gratinar (queijos), cor (mudar durante cozimento), textura, sabor e aparência. 

Custo – Paridade, similaridade. 

Nutrição – equivalência nutricional, redução de sal e gordura saturada.  

Clean label – estabilizantes (substitutos para a metilcelulose), aromas, conservantes, ingredientes conhecidos pelo consumidor.  

Para acessar a análise dos especialistas do GFI na íntegra, basta clicar aqui. O relatório é gratuito e de acesso aberto a todos, proporcionando a livre circulação de conhecimento e fomentando o crescimento do setor como um todo. 

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