Transição no sistema alimentar é necessária para garantir a vida na Terra

Texto: Victória Gadelha

Revisão: Vinícius Gallon

A meta estabelecida pelo Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura terrestre a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais demanda uma redução drástica das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Nos últimos anos, muitos avanços tornaram os setores de transportes, indústrias e energia mais limpos. No entanto, por mais fundamentais que sejam todos esses esforços, eles ainda são insuficientes para limitarmos o aquecimento do planeta. Isso porque o sistema alimentar global é também um dos principais emissores de GEE mas, diferente dos outros setores, seus impactos foram historicamente mal compreendidos e, só agora, começaram a ser expostos com clareza – e com a seriedade que a situação demanda.

Estudos mostram que, mesmo se todas as emissões de combustíveis fósseis fossem imediatamente zeradas, as emissões do sistema alimentar global por si só tornariam impossível limitar o aquecimento a 1,5°C e ameaçariam, inclusive, um aumento acima de 2°C.  Por isso, para cumprir os objetivos do Acordo de Paris e garantir um futuro seguro, é urgente mudar a forma como nós produzimos alimentos e, principalmente, a forma como nós consumimos proteínas.

O sistema alimentar é responsável por 34% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. A produção de proteína animal, sozinha, gera metade desse valor, que é maior do que as emissões totais (de todos os setores combinados) dos EUA.

Essas emissões vêm de várias fontes, principalmente do desmatamento (para abrir pastagens e plantar os grãos que viram ração dos animais de abate), da produção e do uso de fertilizantes e agroquímicos, da fermentação entérica e do esterco dos ruminantes (que, juntos, são responsáveis por 30% das emissões de metano) e da queima de combustíveis fósseis na cadeia de produção e abastecimento de alimentos. A pecuária (pastagem e produção de grãos para ração) ocupa mais de 70% de todas as terras agrícolas do mundo e 30% da superfície terrestre. Mesmo assim, fornece apenas 17% do suprimento alimentar da humanidade.

Com a população mundial prevista para alcançar 10 bilhões de pessoas em 2050, é esperado que o consumo de carne aumente a ponto de dobrar nos países de renda média. E dobrar a produção desse setor, sem mudar seus métodos, significa dobrar todos os impactos que ele gera – em um mundo com recursos naturais já esgotados. 

É por isso que as proteínas alternativas se apresentam como uma solução potente e escalável para uma transição eficaz no sistema alimentar. Novo estudo do The Good Food Institute com o Climate Advisers indica que uma mudança no consumo de proteínas é capaz de fornecer de 14 a 20% da mitigação de emissões que o mundo precisa até 2050 para não ultrapassar o aquecimento de  1,5 ° C. Além disso, é capaz de acelerar outras soluções naturais ao, por exemplo, liberar milhões de hectares de terras que podem ser destinadas para estratégias de conservação, gestão com foco no clima, segurança alimentar, proteção da biodiversidade, etc.

As proteínas alternativas podem ser divididas em dois tipos principais: feitas de plantas (plant-based), que são produtos feitos de vegetais que imitam o sabor, formato e textura das carnes (bovina, suína, de frango, peixe, frutos do mar…), laticínios e derivados; e carne cultivada, fabricada diretamente a partir de células animais, resultando num produto igual ao convencional. A alta eficiência de ambas no uso da terra em relação à carne bovina é, sem dúvidas, uma das suas maiores vantagens, já que precisam de até 99% e 95% menos solo para serem produzidas, respectivamente. 

Ao invés de usar terras para cultivar os grãos que alimentam os animais que, por sua vez, são abatidos para nos alimentar – e ocupar mais terras para criar todos esses animais – as colheitas podem ser usadas diretamente para produzir carne à base de plantas. Dessa forma, deixamos de “terceirizar” a ingestão de proteínas através do animal e podemos tirar esse intermediário da equação. Com isso, todo o metano e o óxido nitroso gerados pela digestão e decomposição do estrume dos ruminantes deixa de ser emitido e, como dito anteriormente, as vastas terras poupadas podem ser destinadas para práticas regenerativas e de preservação. 

Tanto a carne vegetal quanto a cultivada concentram seu gasto de energia em instalações que podem ter uma pegada de carbono mínima se alimentadas com energia renovável, emitindo pouco ou nenhum GEE. Assim como painéis solares e carros elétricos, as proteínas alternativas precisam ser amplamente consumidas para passarem a assumir um papel de protagonismo na redução global de gases de efeito estufa. Apesar desse momento ainda não ter chegado, as inovações do setor seguem em ritmo impressionante e indicam que, logo, as proteínas alternativas poderão competir em sabor e preço com todo tipo de carne animal. 

Os produtos substitutos para carne bovina, suína e de frango já se popularizaram e estão sempre presentes em mercados e hamburguerias como uma opção para vegetarianos e veganos, mas os avanços em relação a alternativas para peixes e frutos do mar também surpreendem e, em termos de impactos ambientais, têm uma relevância importantíssima – que muitas vezes é menosprezada.

Além da pesca predatória agredir os ecossistemas marinhos ao retirar do mar trilhões de animais todos os anos, muitos peixes selvagens (como atum, bacalhau e salmão) já são pescados acima da capacidade máxima e passam a integrar a lista de espécies em extinção. O desenvolvimento de peixes e frutos do mar alternativos pode aliviar a pressão sobre a pesca industrial e os sistemas de aquicultura, que não vão conseguir suprir a lacuna entre oferta e demanda que deve se formar nos próximos anos. Ao mesmo tempo, as proteínas alternativas reduzem em até 91% a poluição dos oceanos (causada pelo escoamento agrícola) e também poupam todos os outros recursos aquáticos, uma vez que precisam de até 99% menos água para serem produzidas do que a carne animal.

Os ganhos ambientais proporcionados por essa transição no sistema alimentar são inegáveis, mas ela também oferece benefícios cruciais à saúde global: relatório da FAO (braço da ONU para alimentação e agricultura) de 2013 já indicava que 70% das doenças infecciosas surgidas no mundo após a década de 1940 são zoonoses, ou seja, têm origem animal. Ebola, HIV/AIDS, Sars e vários vírus da gripe são algumas das doenças derivadas da crescente interação entre animais silvestres, animais para abate e seres humanos. Mas, diferente do atual, um sistema baseado em proteínas alternativas não tem potencial de desencadear novos surtos ou epidemias porque, simplesmente, não envolve a criação e consumo de animais. 

Além disso, a pecuária utiliza mais de 70% de todos os antibióticos existentes no mundo, o que colabora com o aparecimento cada vez maior de superbactérias resistentes a medicamentos – que já matam entre 500 mil e 700 mil pessoas por ano. Como a produção de proteínas alternativas não depende de nenhum antibiótico, seu risco de contribuir para essa ameaça à saúde global também é nulo.

Os relatórios de mercado preveem um aumento constante no consumo de carne cultivada e feita de plantas nas economias desenvolvidas, mas os países de alta renda não são os únicos interessados nesses produtos – tanto que o primeiro centro de pesquisa de carne cultivada no mundo foi criado em Maharashtra, Índia. No entanto, as proteínas alternativas vão ficar limitadas a um nicho de mercado até atingirem uma equivalência entre preço e sabor em relação à carne animal.

Apesar de ser questão de tempo, devido a urgência dessa transição, muito pode ser feito a nível global para acelerá-la. O The Good Food Institute e o Climate Advisers acreditam que as prioridades internacionais devem ser, nesse momento inicial, financiar a pesquisa de acesso aberto, incentivar a P & D do setor privado e apoiar a infraestrutura e fabricação de carne cultivada e à base de plantas.

E como líder mundial em inovação de proteínas alternativas, os Estados Unidos deveriam incentivar a cooperação global desse setor. Muitos países teriam interesses (ambientais e comerciais) para explorar uma diplomacia na transição do sistema alimentar. Entre eles, Noruega, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Dinamarca, nações comprometidas com boas práticas climáticas, Israel e Cingapura, líderes em tecnologia de carne cultivada, e grandes fornecedores de proteína animal, como o Brasil, que podem aproveitar todo o know-how do setor para se tornarem líderes também no mercado de proteínas alternativas.

Os governos que entenderem a importância dessa transição e investirem, agora, na pesquisa, inovação e comercialização de carne cultivada e à base de plantas, vão se tornar os maiores na redução de emissões agrícolas, melhoria da saúde humana, proteção da biodiversidade e aumento da segurança alimentar, colaborando para a garantia de um futuro justo e sustentável.

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