Entrevista com Bruce Friedrich: “Construir um sistema alimentar melhor e mais sustentável é um dos desafios mais importantes da nossa época”

Originalmente publicado por Steff Bottinelli no Food Matters Live em 18 de setembro de 2023

Se você se interessa por inovação alimentar e sustentabilidade, Bruce Friedrich é um nome com o qual você deve estar familiarizado. Formado em direito pela Georgetown Law, pela Universidade Johns Hopkins e pela London School of Economics, em 2016 Friedrich fundou o The Good Food Institute (GFI), organização sem fins lucrativos da qual ele é presidente.

Hoje, o GFI tem mais de 200 membros em tempo integral em afiliadas nos EUA, Europa, Índia, Israel, Brasil e Singapura. O trabalho do instituto é focado em políticas, ciência e envolvimento corporativo no setor das proteínas alternativas e visa fortalecer o fornecimento global de proteínas ao acelerar a produção de carne à base de plantas e cultivada, promover práticas agrícolas sustentáveis e melhorar a segurança alimentar e a saúde global.

Além de supervisionar a estratégia global do GFI, Bruce Friedrich escreve regularmente artigos de opinião para veículos como The Wall Street Journal, USA Today, Los Angeles Times e Wired, é convidado frequente em mesas redondas, podcasts, programas de rádio e é um TED Fellow. A palestra TED de Bruce em 2019 foi vista duas milhões de vezes e traduzida para dezenas de idiomas.

Conversei com Bruce para discutir o futuro das proteínas alternativas e o papel dos governos em ajudar a expandir o setor, a recente aprovação da venda de carne cultivada nos Estados Unidos e a posição de países como a Itália em relação à agricultura celular.

Hoje, há mais informações do que nunca sobre os efeitos prejudiciais da produção de carne, peixe e laticínios no meio ambiente e mais empresas de alimentos, restaurantes e redes de fast food estão produzindo ou oferecendo alternativas à base de plantas. No entanto, apesar da maior disponibilidade de produtos veganos no mercado e o aumento de pessoas comprando regularmente, o consumo de carne animal continua aumentando globalmente. O que você acha que será necessário para as pessoas perceberem que precisam reduzir ou parar completamente de consumir produtos de origem animal? Por que ainda há essa desconexão, apesar de toda a informação disponível?

A resposta é simples: as escolhas alimentares da maioria das pessoas são baseadas em dois fatores simples: sabor e preço. Muitos dos problemas que vimos recentemente no mercado de produtos à base de plantas são devido ao fato de que esses alimentos ainda não atendem a essas métricas – não proporcionam os sabores que os consumidores desejam e ainda são caros demais. Isso me leva à sua última pergunta: a carne à base de plantas ainda está em sua infância e, para que esses alimentos se tornem deliciosos e acessíveis ao maior número possível de pessoas, precisamos que os governos invistam na pesquisa e infraestrutura que o setor precisa – assim como fizeram com a energia renovável.

É impossível exagerar a importância disso: a população mundial está prevista para atingir 10 bilhões até 2050, e essas pessoas estão consumindo cada vez mais carne. Será impossível alimentá-las usando um sistema tão ineficiente quanto a agricultura animal industrial, que consome nove calorias de ração para produzir uma caloria de carne de frango.

Os alimentos à base de plantas são frequentemente acusados de serem ultraprocessados. No entanto, sabemos que muitos produtos de origem animal muitas vezes mal contêm os ingredientes que deveriam, mas têm uma grande quantidade de aditivos, enquanto muitos produtos à base de plantas são feitos com apenas alguns ingredientes. Como podemos mudar a percepção dos alimentos veganos?

Acredito que precisamos de uma conversa mais bem informada sobre o que o termo “ultraprocessado” significa. Praticamente tudo o que comemos, desde molho de massas até pão, é processado. O processamento pode ser usado para tornar os alimentos mais seguros, adicionar vitaminas e minerais e preservá-los por mais tempo para evitar o desperdício. O número de ingredientes não determina, necessariamente, a saúde de um produto. A banha tem um ingrediente e um pão integral tem muitos, mas poucos argumentariam que a banha é mais saudável que o pão integral. Comparado à carne produzida convencionalmente, a carne à base de plantas tem menor teor de gordura saturada, menor densidade calórica, mais fibras e carboidratos complexos e nenhum colesterol. Em resumo, é mais saudável.

Muitos gigantes do setor alimentício agora entraram no setor de alimentos à base de plantas, como Nestlé, Unilever… Alguns os acusam de lucrar, outros de normalizar a produção à base de plantas e torná-la mais democrática. Quais são seus pensamentos sobre isso?

Essas grandes empresas de alimentos têm a infraestrutura para ampliar a produção e o conhecimento técnico para impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento, então precisamos que elas entrem no jogo se quisermos melhorar a qualidade, reduzir os custos e fazer com que os alimentos à base de plantas se tornem uma opção padrão para todos. No entanto, a carne à base de plantas pode ser produzida por empresas de todos os tamanhos e formas, adaptadas às necessidades e gostos de diferentes culturas.

Há espaço para todos neste setor, o que significa que as grandes empresas trabalham de mãos dadas com as startups. Para permitir um ecossistema diversificado de empresas onde os produtores independentes podem prosperar, precisamos que os governos financiem pesquisas de acesso aberto, para democratizar as possibilidades de carne à base de plantas – em vez de deixar a inovação para empresas privadas.

Você frequentemente fala sobre a necessidade de subsídios governamentais para ajudar a expandir proteínas alternativas da mesma forma que os governos subsidiaram a energia renovável. No entanto, com algumas exceções, isso ainda não está acontecendo amplamente. O que você acha que será necessário para os governos entenderem a necessidade desse apoio financeiro e assumirem um papel ativo na produção de proteínas sustentáveis?

Nosso relatório sobre o Estado da Política Global constatou que estamos começando a ver lentamente uma mudança nessa direção, com governos em todo o mundo percebendo a importância das proteínas alternativas na sustentabilidade. Na Europa, o governo holandês está liderando o caminho ao anunciar 60 milhões de euros para o maior investimento público já feito em agricultura celular e, no início deste ano, o governo do Reino Unido investiu 13 milhões de libras em um novo centro de pesquisa para investigar como produzir carne cultivada em escala.

No entanto, os governos precisam ir mais longe e mais rápido. Os líderes mundiais precisam observar as inundações, ondas de calor e incêndios florestais que temos visto nos últimos meses e entender a urgência de construir um sistema alimentar mais resiliente e sustentável. Eles precisam perceber que, mesmo se as emissões de combustíveis fósseis fossem eliminadas da noite para o dia, o mundo não atingiria suas metas do Acordo de Paris sem se afastar da agricultura animal convencional. Eles precisam entender a importância de investir em alimentos que possam reduzir as emissões e liberar terras para a restauração da natureza e para uma agricultura mais sustentável.

E, em um nível prático, eles precisam reconhecer o potencial deste setor em termos de custo-benefício: de acordo com o Boston Consulting Group e a Blue Horizon, para cada trilhão de dólares investidos no desenvolvimento de carne à base de plantas, 4,4 Gt de CO2 equivalente poderiam ser economizados – três vezes mais do que o mesmo investimento em outros setores de alto impacto, como transporte ou construção.

Você acha que as escolas deveriam ensinar as crianças sobre agricultura e de onde vem a comida? Por exemplo, ter aulas sobre agricultura industrial e pecuária?

Eu não acho uma má ideia, estou aberto a qualquer sugestão que torne as pessoas mais conscientes dos danos causados pela agricultura animal industrial. Mas eu não acredito que isso vá ao cerne do problema. Organizações vegetarianas e veganas em todo o mundo têm tentado educar as pessoas há décadas sobre por que deveriam comer menos carne, e isso não alterou o fato de que a demanda global por carne deverá crescer mais da metade até 2050.

Você pode fornecer às pessoas todas as informações que quiser, mas enquanto não conseguirmos fazer com que a carne à base de plantas, cultivada ou fermentada tenha o mesmo sabor ou melhor, e seja tão acessível ou mais barata do que a carne convencional, não conseguiremos reverter essa tendência.

A carne cultivada é frequentemente acusada de ser “sintética”, no entanto, a forma como é produzida significa que demanda menos aditivos, como antibióticos, que podem gerar problemas para os humanos, como a resistência aos antibióticos. Alguns governos, como o atual governo italiano, são firmes em afirmar que irão proibir a pesquisa, produção e venda de carne cultivada no país, embora o consumo humano de produtos cultivados ainda não tenha sido legalizado na Europa. Por que você acha que há resistência a essa tecnologia? Entrevistei recentemente o Ministro da Agricultura italiano, e ele afirmou que a carne cultivada poderia acabar com a agricultura animal tradicional na Itália e que a forma como é produzida – em sua opinião – poderia ser potencialmente menos sustentável do que a agricultura tradicional. Por que tantas pessoas e políticos hesitam em considerar a ciência?

A carne cultivada é uma tecnologia transformadora e eu entendo totalmente por que muitas pessoas hesitam quando ouvem falar sobre ela. É por isso que precisamos de conversas abertas, honestas e baseadas em evidências, especialmente com políticos. Pesquisas mostram que a carne cultivada tem o potencial de reduzir as emissões em até 92% em comparação com a carne convencional, além de ajudar a combater a ameaça da resistência antimicrobiana. Também precisamos de diálogo aberto sobre como a eficiência da carne cultivada pode possibilitar práticas agrícolas mais sustentáveis, liberando terras, e os formuladores de políticas públicas precisam trabalhar com comunidades agrícolas para apoiá-las na implementação dessas práticas.

É uma pena ver um país que sempre foi pioneiro em inovação alimentar se afastando da oportunidade de moldar o futuro da carne cultivada. O governo italiano é um verdadeiro ponto fora da curva aqui, tanto em termos de querer interromper a ciência quanto em querer restringir a escolha do consumidor – enquanto outros governos na Europa e no mundo começam a investir. Ninguém gosta de ser regulado sobre o que pode ou não pode comer, e um estudo do GFI Europa do ano passado descobriu que 55% dos italianos estavam dispostos a comprar carne cultivada quando ela chegasse ao mercado. Quando os reguladores europeus aprovam produtos, cabe aos consumidores, e não aos políticos, decidir se desejam ou não consumir carne cultivada.

A carne cultivada foi recentemente aprovada para consumo humano nos Estados Unidos. Na sua opinião, quanto tempo levará para que outros países sigam o exemplo?

Acabamos de receber a emocionante notícia de que a Aleph Farms apresentou as primeiras solicitações europeias aos reguladores suíços e britânicos, e as solicitações também estão sendo analisadas em Israel, Austrália e Nova Zelândia, com outras esperadas até o final de 2023. Não quero fazer previsões e dar uma data – os reguladores precisam do tempo e espaço necessários para realizar seu trabalho e passar aos consumidores confiança sobre esse novo alimento – mas estou confiante de que veremos pessoas em muitos mais países dando suas primeiras mordidas de carne cultivada nos próximos anos.

No que diz respeito à Europa, Suíça e Reino Unido têm uma história de inovação alimentar e consumidores com apetite por produtos mais sustentáveis, então tenho certeza de que veremos filas ao redor do quarteirão quando esse alimento estiver à venda lá, provavelmente em pelo menos 18 meses. Mas é impressionante que as primeiras solicitações para comercialização de carne cultivada da Europa não tenham chegado a Bruxelas. Com a Itália tentando proibir a carne cultivada enquanto outros países investem, a Europa está enviando mensagens mistas para empresas que precisam de certeza para alcançar seu potencial. A União Europeia deve desenvolver uma estratégia coerente para apoiar o setor de proteínas sustentáveis e garantir que os processos regulatórios sejam claros.

Em muitas entrevistas, você disse que se quisermos mudar o sistema alimentar, precisamos trabalhar dentro do sistema. Você acha que isso está acontecendo rápido o suficiente? O que mais precisa ser feito?

A resposta curta é não. Estamos vendo alguns exemplos excelentes, como a empresa de laticínios Arla Foods trabalhando com a empresa de biotecnologia Novozymes para desenvolver ingredientes usando fermentação de precisão, e a Bitburger Brewery fornecendo subprodutos da produção de cerveja para a alemã Mushlabs alimentar seu processo de fermentação. Mas precisamos urgentemente ver mais grandes empresas de alimentos entrando e fornecendo a infraestrutura e o peso de P & D necessários para impulsionar as proteínas alternativas para o mainstream.

Para que isso mude, as empresas precisam entender os enormes benefícios de se envolver em proteínas alternativas – há uma grande oportunidade em termos de explorar novos mercados e impulsionar suas credenciais ESG. Nossos relatórios recentes de análise de fabricação de proteínas à base de plantas e obtidas por fermentação fizeram algumas excelentes sugestões para empresas, como a possibilidade de modernizar edifícios e equipamentos existentes como uma maneira viável e acessível de ganhar escala rapidamente.

Atualmente, várias startups estão trabalhando no campo de carne cultivada. Algumas provavelmente se tornarão comerciais e viáveis, enquanto outras não vão conseguir – assim como em qualquer outro setor. Você acha que veremos um dia em que a carne cultivada se torne uma concorrente direta da carne derivada de animais abatidos?

Pesquisas da CE Delft mostram que até 2030 os custos de produção da carne cultivada podem cair drasticamente, se aproximando do nível em que ela possa competir com a carne convencional. Mas, para que isso aconteça, os setores público e privado precisarão investir valores significativos em pesquisa e desenvolvimento para superar os obstáculos existentes, que vão desde aumentar a disponibilidade de linhagens celulares até reduzir o custo dos meios de cultura celular – o caldo nutritivo de que as células precisam para crescer – e construir cultivadores maiores e mais eficientes.

Construir um sistema alimentar melhor e mais sustentável é um dos desafios mais importantes de nossa era e, se quisermos aproveitar essa enorme oportunidade, governos e empresas precisam apoiar esse esforço e investir.

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