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InovAmazonia: quando apoiar a ciência brasileira gera impacto real

17 de março de 2026

Após três anos de uma parceria muito significativa, GFI Brasil e Fundo JBS pela Amazônia encerraram as atividades do projeto InovAmazônia: Ingredientes para o Mercado de Alimentos Vegetais. Nesse período, sete pesquisadores desenvolveram, com êxito, soluções e ingredientes para a indústria de proteínas alternativas, a partir de espécies nativas do bioma mais rico do planeta.

A cerimônia foi muito além das apresentações de resultados dos estudos. Foi a materialização do pensamento que orienta o trabalho do GFI Brasil: as soluções climáticas, tecnológicas e produtivas capazes de impulsionar o setor de proteínas alternativas no Brasil e no Sul Global vão nascer em nossos próprios territórios, das nossas vocações e dos desafios que conhecemos de perto.

“O InovAmazônia foi o maior projeto apoiado pelo fundo no eixo de Pesquisa e Desenvolvimento desde sua criação, em 2020. Se não fosse o GFI, não seria possível identificar os melhores parceiros, as pesquisas que precisavam ser desenvolvidas e orquestrar todo esse projeto, trazendo resultados muito relevantes."
Lucas de Oliveira Scarascia
Fundo JBS pela Amazônia

Em um almoço guiado no restaurante Banana Verde, convidados de diferentes frentes, incluindo pesquisadores, investidores, empresas e atores do ecossistema de inovação, puderam experimentar, em todos os sentidos, o que significa investir em ciência feita no Brasil, a partir da nossa biodiversidade.

Esse foi o espírito do evento: mostrar que não há transição sem capacidade local de produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e criar respostas adequadas ao nosso contexto. E poucas agendas traduzem isso tão bem quanto a investigação de espécies nativas da Amazônia com potencial para ampliar e qualificar a oferta de novos ingredientes para a indústria de proteínas alternativas.

Te convidamos, então, a conhecer as pesquisas, e, de alguma forma, experienciar os sabores e aromas do InovAmazônia

Cada prato serviu de ponto de partida para uma das investigações apresentadas, aproximando resultados científicos de aplicações concretas em alimentos, com comentários da chef Priscila Herrera, responsável pela elaboração do menu.

Bolinho do sertão, feito com massa de mandioca com proteína de castanha do Brasil, recheado com proteína vegetal e queijo de castanha, servido com chutney de mangá.

A primeira entrada foi associada à pesquisa da Dra. Ana Vânia Carvalho, da Embrapa Amazônia Oriental. O destaque foi o uso da castanha-do-brasil como fonte de proteína alternativa para o mercado plant-based, com desenvolvimento de farinha parcialmente desengordurada, concentrado proteico e proteína texturizada. O projeto também demonstrou aplicações em análogos cárneos, como quibe vegetal, hambúrguer e texturizado misto com soja. Enquanto esses avanços eram apresentados, os convidados provavam um bolinho do sertão feito com mandioca, proteína de castanha-do-pará, recheio vegetal e queijo de castanhas, acompanhado de chutney de manga.

Na segunda entrada, mini-hambúrguer de babaçu, acompanhado de alface e molho tzatziki, Roseli Ferrari, do ITAL, apresentou a conversão de subprodutos do babaçu em ingrediente proteico por meio de hidrólise e fermentação. O resultado central foi um hambúrguer com 14g de proteína e 9,2g de fibras por 100g de produto, além de formulação mais limpa e aceitação de 88% da nota do produto comercial de referência. 

A conversa também trouxe a dimensão de processamento local, escalonamento e possibilidade de miniusinas e estruturas produtivas próximas às comunidades que desenvolvem o extrativismo do babaçu por meio das quebradeiras de coco.

Mini hambúrguer à base de proteína de babaçu, alface e molho tzatziki.

A participação de Nelinha do Babaçu acrescentou ao momento uma dimensão ainda mais potente: a de que inovação também se constrói com rosto, território, trabalho coletivo e impacto social concreto.

"Estar nesse evento é a oportunidade de falar em nome de 350 mil mulheres. Quem saiu ganhando daqui hoje foi a humanidade"
Nelinha do Babaçu
Empreendedora do projeto Reflyta

Na sequência, Priscilla Efraim, da Unicamp, apresentou os avanços no aproveitamento integral do guaraná. A pesquisa desenvolveu ingredientes proteicos a partir de diferentes frações do fruto, incluindo extrações aquosas e hidroalcoólicas, bem como do uso da casca do fruto. Nas formulações extrusadas, os blends com guaraná apresentaram ganhos em expansão, absorção de água e presença de cafeína, além de atributos sensoriais positivos, como cor marrom, aroma defumado e notas associadas à carne e ao grelhado. Enquanto ouviam os resultados, os convidados saboreavam um penne com almôndegas de guaraná.

Penne salteado com brócolis ao alho-poró, champignon e tomatinhos confitados com almôndegas de guaraná.

O mesmo se deu na apresentação de Juliano Bicas, também da Unicamp, que trouxe avanços em fermentação sólida aplicada a análogos cárneos a partir de basidiomicetos da Amazônia e subprodutos agroindustriais. A proposta, com potencial para gerar biomassa com textura promissora e aromas associados a caldo de carne ou extrato de levedura, se destacou por reduzir etapas de processamento e por apontar caminhos para ingredientes multifuncionais e escaláveis. O prato que acompanhava essa conversa, nhoque de castanha-do-Brasil ao molho cremoso de tucupí e feijão manteiguinha, oferecia uma tradução sensível daquilo que a pesquisa indicava: sofisticação técnica e identidade regional podem caminhar juntas.

Nhoque de batata com proteína de castanhas do Brasil, envolvido no molho de tucupí cremoso e feijão manteiguinha.

E de sobremesa, o encontro trouxe três frentes de pesquisa, acompanhadas de duas sobremesas de alto padrão: mini torta de limão clássica e mini torta de gianduia. 

Acácio Zielinski, da UFSC, apresentou o BioAmazon2mEAT, com foco em estruturas proteicas anisotrópicas e no uso de matérias-primas amazônicas para gerar textura fibrosa, incluindo proteína e gordura obtidas por meio de processos simultâneos e alternativos à extrusão convencional. Anderson Pereira, da UFAM, mostrou o concentrado proteico de amêndoa de tucumã, com salto de 11% para 53% de proteína, e sua aplicação em protótipo de hambúrguer. E Victor Bertucci Neto, da Embrapa Instrumentação, apresentou o desenvolvimento de flavorizantes baseados em cacau e cupuaçu via fermentação controlada, incluindo um reator automatizado com TRL 5 e obtenção de aroma associado a churrasco por aquecimento de cascas e amêndoas.

Mini torta de limão: base crocante de bolacha, creme aveludado de chocolate branco com coco, suco de limão e merengue de coco. Mini torta de gianduia: base crocante de avelã e cacau, creme aveludado de chocolate e avelã.

Ao longo de todo o encontro, uma mensagem se tornava cada vez mais evidente: o Brasil não precisa apenas adaptar tecnologias concebidas em outros lugares. O Brasil pode, e deve, ser protagonista na construção de conhecimento e de soluções originais para a transformação dos sistemas alimentares. Quando olhamos para a nossa biodiversidade, para os resíduos e subprodutos ainda subutilizados, para as cadeias produtivas locais e para a inteligência científica instalada no país, encontramos não só ingredientes promissores, mas também novas possibilidades de desenvolvimento econômico, inovação industrial e resposta climática.

Amostras dos produtos apresentados pelos pesquisadores.

Os projetos apresentados no InovAmazonia mostraram justamente isso. Eles não ficaram restritos ao plano conceitual. Houve desenvolvimento de ingredientes, protótipos, processos, rotas tecnológicas e, em alguns casos, infraestrutura laboratorial. Também ficou claro que muitos dos próximos passos agora passam menos pela descoberta inicial e mais pelos desafios de escala, validação industrial, viabilidade econômica, conexão com o mercado e novas captações. Em outras palavras: a ciência já abriu a porta. O que precisamos, daqui em diante, é ampliar as condições para que essas soluções avancem.

Amostras dos produtos apresentados pelos pesquisadores.

No encerramento, Natália Figueiredo, jornalista do GFI Brasil, reforçou o potencial da Amazônia como origem de inovação científica e aplicação prática para alimentos vegetais, com benefícios para cadeias locais e para a geração de renda associada ao uso sustentável da biodiversidade. A programação terminou com agradecimentos, networking e conversas sobre novas colaborações — mas a sensação que permanecia era a de que algo maior havia sido compartilhado ali: uma visão concreta de futuro.

Para quem não pôde estar presente, essa é talvez a imagem mais importante a guardar: um grupo de pesquisadores, investidores, empresas, organizações e representantes de cadeias produtivas reunidos em torno de uma mesma mesa, não apenas para observar tendências, mas para reconhecer evidências de que o futuro da alimentação pode ser construído com ciência brasileira, biodiversidade brasileira e soluções que façam sentido para o Brasil e para o Sul Global.

Time do GFI Brasil durante evento do InovAmazônia.

É esse o horizonte que o GFI quer fortalecer ao falar em soberania científica. E foi isso que o InovAmazonia nos permitiu ver, provar e imaginar com mais clareza: que investir em pesquisa nacional aplicada é investir em uma indústria mais resiliente, em cadeias mais inclusivas, em soluções climáticas mais aderentes à nossa realidade e em um Brasil capaz de liderar, com originalidade, uma transformação global.

Se você deseja receber as apresentações do evento, incluindo as informações técnicas de cada ingrediente, entre em contato.

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