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Efeito Ozempic: As carnes vegetais como aliadas das dietas GLP-1

A saúde pública vem enfrentando desafios cada vez maiores devido ao crescimento populacional e ao estilo de vida moderno. Um deles é a taxa crescente de obesidade e sobrepeso. Segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), vinculado ao Ministério da Saúde, 34,66% da população brasileira apresenta algum grau de obesidade.  Mundialmente, pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a obesidade esteve associada a cerca de 3,7 milhões de mortes em 2024 e que o número de pessoas vivendo com a condição pode dobrar até 2030. Como aliadas dessa luta, uma dieta equilibrada e a prática constante de exercícios físicos são, segundo médicos e especialistas, as melhores opções para um estilo de vida mais saudável. De acordo com Marina Sallum, nutricionista e especialista em negócios na indústria de alimentos, “Os números de obesidade no Brasil e no mundo revelam um problema estrutural que vai além do comportamento individual – eles refletem um ambiente alimentar que ainda não está totalmente alinhado às necessidades nutricionais da população. Do ponto de vista da saúde pública, isso reforça a urgência de soluções que sejam, ao mesmo tempo, acessíveis, práticas e nutricionalmente adequadas”, explica Marina. As canetas emagrecedoras já chegaram em 33% dos lares brasileiros. Nos últimos anos, contudo, outro componente entrou nessa equação na busca pela saúde e pelo bem-estar: as canetas emagrecedoras. Em 2025, a compra desses medicamentos chegou a US$ 1,669 bilhão – cerca de R$ 9 bilhões. No Brasil, 33% dos lares têm ao menos um morador que utiliza ou já utilizou esses medicamentos, segundo o Instituto Locomotiva. Com o atual cenário, surgiu a necessidade de adequar a alimentação do dia a dia à nova forma de funcionamento do organismo. Segundo a mesma pesquisa, 47% dos domicílios com usuários do medicamento reduziram o consumo de massas e carboidratos, ao passo que 40% aumentaram a ingestão de alimentos considerados saudáveis.  “Os medicamentos GLP-1 vêm mudando a relação de uma parcela crescente da população com a comida – e aqui nasce uma grande oportunidade para a indústria. Com menor apetite e ingestão reduzida, cada refeição passa a ter um peso ainda maior do ponto de vista nutricional: não há espaço para calorias vazias. Isso cria uma demanda real por alimentos densos em nutrientes, ricos em proteína e fibras, e que caibam em porções menores”, afirma Marina. Empresas como a ADM já identificaram o potencial de mercado desse grupo e estão desenvolvendo ingredientes, como proteínas, probióticos e saborizantes, voltados a esse público. “Criamos uma plataforma de soluções completas para apoio ao tratamento de usuários de medicamentos análogos do GLP-1, pensando nas necessidades específicas de cada momento, seja durante o uso das soluções para emagrecimento ou após a aplicação regular, quando há diversos cuidados a serem mantidos. Ao longo do tratamento, o foco é ajudar a promover a saúde muscular, evitar a constipação e manter a microbiota saudável por meio de fibras, pré e probióticos para minimizar desconfortos gástricos e melhorar a absorção de nutrientes.  As proteínas possuem papel fundamental na manutenção de massa muscular e as soluções híbridas ou 100% vegetais, de forma geral, são produtos com quantidade menor de gorduras saturadas, além de apresentarem maior digestibilidade e custo mais acessível para a indústria e o consumidor”, explica Tiago Coroa, gerente de desenvolvimento de produtos e criação da ADM na América Latina. Mounjaro, Ozempic e uma dieta equilibrada Olhando para esse novo nicho de mercado, as carnes vegetais podem se tornar verdadeiras parceiras de pacientes em dietas GLP-1. Segundo estudo conduzido pelo GFI, Aspectos nutricionais dos alimentos vegetais análogos à carne no mercado brasileiro, diversos produtos disponíveis no mercado atualmente são considerados fontes de proteína, alguns com níveis superiores a 50%; já 68% são considerados fontes de fibras; e apenas 9% das carnes vegetais analisadas são altas em gordura. “As carnes vegetais são uma opção interessante para quem precisa de uma alimentação equilibrada. O estudo do GFI Brasil mostra que a categoria vem evoluindo, com avanços importantes na redução de sódio e de gordura saturada em muitos produtos. Além disso, esses alimentos contribuem para o suprimento de proteína e têm um diferencial relevante: a presença de fibras, que não estão presentes na carne convencional. Como em qualquer escolha alimentar, o mais importante é observar a composição nutricional de cada produto e entender como compor uma dieta balanceada de acordo com as necessidades individuais”, afirma Cristiana Ambiel, diretora de Ciência e Tecnologia do GFI e coordenadora do estudo. Diversos produtos plant-based são fontes de proteína, fibra e tem baixos níveis de gordura. Imagem: N.Ovo. “As empresas do setor de proteínas vegetais precisam estar atentas às mudanças de comportamento da população para posicionar a categoria de forma mais estratégica. Se hoje temos uma parcela da população que procura alimentos com as características nutricionais que as carnes vegetais oferecem, precisamos nos comunicar com esse público e mostrar que os produtos estão aqui para apoiá-los nessa jornada”, destaca Raquel Casselli, diretora de Engajamento Corporativo no GFI Brasil. Ela destaca ainda que esse é um exemplo de como uma categoria pode apoiar o consumidor a resolver uma tensão emergente da atualidade, tema que foi destaque na pesquisa Estratégias para destravar o mercado brasileiro de carnes vegetais, publicada pelo GFI, que busca apoiar o setor privado a identificar oportunidades voltadas ao crescimento da categoria. “Categorias fortes não surgem do nada, elas respondem a dilemas reais. Produtos bem-sucedidos tendem a emergir em momentos de mudança cultural, social ou comportamental, em que o consumidor busca resolver um conflito entre desejos e restrições. A função do produto é entregar uma resposta tangível a esse desconforto percebido, ainda que parcialmente. Ao reconhecer uma dor latente e se apresentar como solução, o produto não apenas atende a uma necessidade, ele conquista relevância emocional. E é exatamente essa relevância que transforma a curiosidade inicial em comportamento repetido”, conta Camila Lupetti, especialista em Inteligência de Mercado no GFI Brasil. O que vem por aí? Esse é o primeiro artigo de uma nova série que será apresentada nos canais do GFI Brasil sobre Estratégias para destravar o mercado brasileiro de carnes vegetais. Acompanhe o blog

Oportunidades abertas no GFI Brasil para agências e profissionais de comunicação

No Good Food Institute, acreditamos que a transição para um sistema alimentar mais sustentável é fundamental para enfrentar a crise climática, reduzir o risco de doenças zoonóticas e alimentar mais pessoas com menos recursos. Por isso, incentivamos a ciência, apoiamos a indústria e subsidiamos políticas voltadas ao desenvolvimento de alimentos vegetais análogos, cultivados ou obtidos por fermentação. Confira nossas oportunidades e envie a sua proposta. Seleções abertas 1. Mídias Sociais Agências, consultorias e profissionais de mídias sociais. Queremos formar um banco de talentos e selecionar parceiros para atendimento mensal em redes como Instagram, LinkedIn, YouTube e TikTok. O objetivo é ampliar o alcance de conteúdos baseados em dados sobre proteínas alternativas, voltados principalmente a pesquisadores, empresas, investidores e formuladores de políticas públicas. As propostas devem incluir apresentação da empresa, portfólio e uma proposta de trabalho com estratégia geral para os canais do GFI Brasil. Inscrições até 10/04/2026 Acesse o documento completo 2. Assessoria de Imprensa Agências, consultorias e profissionais de assessoria de imprensa interessados em apoiar nossa estratégia de relacionamento com a mídia. A iniciativa busca formar um banco de talentos e selecionar parceiros para atendimento mensal, com foco na ampliação da presença do GFI em veículos relevantes e na disseminação de conteúdos qualificados sobre proteínas alternativas. O trabalho envolve o planejamento e execução de estratégias de comunicação, incluindo o lançamento de publicações, relacionamento com jornalistas e geração de cobertura alinhada aos públicos prioritários do GFI. As propostas devem incluir apresentação da empresa, portfólio e uma proposta de trabalho com metodologia e estratégia de atuação. Inscrições até 10/04/2026 Acesse o documento completo 3. Design Agências, consultorias e profissionais de design interessados em apoiar os nossos projetos de comunicação. Queremos criar um banco de talentos e selecionar parceiros para atendimento por projeto, abrangendo desde materiais institucionais até produtos digitais e editoriais. O escopo inclui a criação de publicações, páginas web, infográficos, apresentações, peças gráficas e conteúdos visuais diversos, sempre com alto rigor técnico e alinhamento aos diferentes públicos do GFI. As propostas devem incluir a apresentação da empresa, o portfólio e uma proposta de trabalho com serviços, valores de referência e metodologia de desenvolvimento. Inscrições até 10/04/2026 Acesse o documento completo

InovAmazônia: quando apoiar a ciência brasileira gera impacto real

Após três anos de uma parceria muito significativa, GFI Brasil e Fundo JBS pela Amazônia encerraram as atividades do projeto InovAmazônia: Ingredientes para o Mercado de Alimentos Vegetais. Nesse período, sete pesquisadores desenvolveram, com êxito, soluções e ingredientes para a indústria de proteínas alternativas, a partir de espécies nativas do bioma mais rico do planeta. A cerimônia foi muito além das apresentações de resultados dos estudos. Foi a materialização do pensamento que orienta o trabalho do GFI Brasil: as soluções climáticas, tecnológicas e produtivas capazes de impulsionar o setor de proteínas alternativas no Brasil e no Sul Global vão nascer em nossos próprios territórios, das nossas vocações e dos desafios que conhecemos de perto. “O InovAmazônia foi o maior projeto apoiado pelo fundo no eixo de Pesquisa e Desenvolvimento desde sua criação, em 2020. Se não fosse o GFI, não seria possível identificar os melhores parceiros, as pesquisas que precisavam ser desenvolvidas e orquestrar todo esse projeto, trazendo resultados muito relevantes.” Lucas de Oliveira Scarascia Fundo JBS pela Amazônia Em um almoço guiado no restaurante Banana Verde, convidados de diferentes frentes, incluindo pesquisadores, investidores, empresas e atores do ecossistema de inovação, puderam experimentar, em todos os sentidos, o que significa investir em ciência feita no Brasil, a partir da nossa biodiversidade. Esse foi o espírito do evento: mostrar que não há transição sem capacidade local de produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e criar respostas adequadas ao nosso contexto. E poucas agendas traduzem isso tão bem quanto a investigação de espécies nativas da Amazônia com potencial para ampliar e qualificar a oferta de novos ingredientes para a indústria de proteínas alternativas. Te convidamos, então, a conhecer as pesquisas, e, de alguma forma, experienciar os sabores e aromas do InovAmazônia https://youtu.be/j4A0bUWq1lA?si=fZum0iAK_jMBSCcQ Cada prato serviu de ponto de partida para uma das investigações apresentadas, aproximando resultados científicos de aplicações concretas em alimentos, com comentários da chef Priscila Herrera, responsável pela elaboração do menu. Bolinho do sertão, feito com massa de mandioca com proteína de castanha do Brasil, recheado com proteína vegetal e queijo de castanha, servido com chutney de mangá. A primeira entrada foi associada à pesquisa da Dra. Ana Vânia Carvalho, da Embrapa Amazônia Oriental. O destaque foi o uso da castanha-do-brasil como fonte de proteína alternativa para o mercado plant-based, com desenvolvimento de farinha parcialmente desengordurada, concentrado proteico e proteína texturizada. O projeto também demonstrou aplicações em análogos cárneos, como quibe vegetal, hambúrguer e texturizado misto com soja. Enquanto esses avanços eram apresentados, os convidados provavam um bolinho do sertão feito com mandioca, proteína de castanha-do-pará, recheio vegetal e queijo de castanhas, acompanhado de chutney de manga. Na segunda entrada, mini-hambúrguer de babaçu, acompanhado de alface e molho tzatziki, Roseli Ferrari, do ITAL, apresentou a conversão de subprodutos do babaçu em ingrediente proteico por meio de hidrólise e fermentação. O resultado central foi um hambúrguer com 14g de proteína e 9,2g de fibras por 100g de produto, além de formulação mais limpa e aceitação de 88% da nota do produto comercial de referência.  A conversa também trouxe a dimensão de processamento local, escalonamento e possibilidade de miniusinas e estruturas produtivas próximas às comunidades que desenvolvem o extrativismo do babaçu por meio das quebradeiras de coco. Mini hambúrguer à base de proteína de babaçu, alface e molho tzatziki. A participação de Nelinha do Babaçu acrescentou ao momento uma dimensão ainda mais potente: a de que inovação também se constrói com rosto, território, trabalho coletivo e impacto social concreto. “Estar nesse evento é a oportunidade de falar em nome de 350 mil mulheres. Quem saiu ganhando daqui hoje foi a humanidade” Nelinha do Babaçu Empreendedora do projeto Reflyta Na sequência, Priscilla Efraim, da Unicamp, apresentou os avanços no aproveitamento integral do guaraná. A pesquisa desenvolveu ingredientes proteicos a partir de diferentes frações do fruto, incluindo extrações aquosas e hidroalcoólicas, bem como do uso da casca do fruto. Nas formulações extrusadas, os blends com guaraná apresentaram ganhos em expansão, absorção de água e presença de cafeína, além de atributos sensoriais positivos, como cor marrom, aroma defumado e notas associadas à carne e ao grelhado. Enquanto ouviam os resultados, os convidados saboreavam um penne com almôndegas de guaraná. Penne salteado com brócolis ao alho-poró, champignon e tomatinhos confitados com almôndegas de guaraná. O mesmo se deu na apresentação de Juliano Bicas, também da Unicamp, que trouxe avanços em fermentação sólida aplicada a análogos cárneos a partir de basidiomicetos da Amazônia e subprodutos agroindustriais. A proposta, com potencial para gerar biomassa com textura promissora e aromas associados a caldo de carne ou extrato de levedura, se destacou por reduzir etapas de processamento e por apontar caminhos para ingredientes multifuncionais e escaláveis. O prato que acompanhava essa conversa, nhoque de castanha-do-Brasil ao molho cremoso de tucupí e feijão manteiguinha, oferecia uma tradução sensível daquilo que a pesquisa indicava: sofisticação técnica e identidade regional podem caminhar juntas. Nhoque de batata com proteína de castanhas do Brasil, envolvido no molho de tucupí cremoso e feijão manteiguinha. E de sobremesa, o encontro trouxe três frentes de pesquisa, acompanhadas de duas sobremesas de alto padrão: mini torta de limão clássica e mini torta de gianduia.  Acácio Zielinski, da UFSC, apresentou o BioAmazon2mEAT, com foco em estruturas proteicas anisotrópicas e no uso de matérias-primas amazônicas para gerar textura fibrosa, incluindo proteína e gordura obtidas por meio de processos simultâneos e alternativos à extrusão convencional. Anderson Pereira, da UFAM, mostrou o concentrado proteico de amêndoa de tucumã, com salto de 11% para 53% de proteína, e sua aplicação em protótipo de hambúrguer. E Victor Bertucci Neto, da Embrapa Instrumentação, apresentou o desenvolvimento de flavorizantes baseados em cacau e cupuaçu via fermentação controlada, incluindo um reator automatizado com TRL 5 e obtenção de aroma associado a churrasco por aquecimento de cascas e amêndoas. Mini torta de limão: base crocante de bolacha, creme aveludado de chocolate branco com coco, suco de limão e merengue de coco. Mini torta de gianduia: base crocante de avelã e cacau, creme aveludado de chocolate e avelã. Ao longo de

Opinião: Câmara aprova projeto que limita o uso de termos como ‘carne’ e ‘leite’ nos rótulos de produtos plant-based. E agora?

A Câmara dos Deputados aprovou o PL 10556/2018, que proíbe o uso da palavra “leite” por produtos que não sejam de origem animal. O texto aprovado também amplia essa proibição para produtos cárneos, como hambúrgueres e salsichas de origem vegetal. Como o projeto tramitou em regime de urgência, foi votado diretamente no plenário, sem passar pelas comissões técnicas. Produtos cárneos de origem vegetal também serão afetados. Leia também: Câmara limita uso de nomes de leite e carne em produtos vegetais Os defensores do projeto afirmam que a medida protege o consumidor de possíveis enganos na hora da compra. No entanto, pesquisas no Brasil e no exterior mostram que 97% dos consumidores sabem exatamente o que estão comprando. Ou seja, a grande maioria escolhe esses produtos de forma consciente, seja por motivos de saúde, por valores pessoais ou por preocupação ambiental. Leia também: Rotulagem plant-based: veja análise do GFI sobre Nota Técnica do Mapa Além disso, instituições como a Embrapa, a Anvisa e o próprio Ministério da Agricultura já se manifestaram tecnicamente contra esse tipo de restrição, por entenderem que ela pode prejudicar a inovação e as pesquisas desenvolvidas no país. Essa proposta pode representar um retrocesso para a inovação em alimentos no Brasil. As proteínas alternativas são uma oportunidade importante para agregar valor a cadeias do agro brasileiro, como soja, feijão e castanhas. Restringir o uso de nomes que o consumidor já entende não facilita a escolha, pelo contrário, pode gerar mais confusão e limitar a livre concorrência. O projeto segue para o Senado, onde ainda será debatido. Se for aprovado, vai para sanção ou para veto do Presidente da República. O importante agora é que o debate seja técnico, baseado em ciência e no interesse da sociedade.  “Existe uma visão equivocada de que as proteínas alternativas vieram para substituir as proteínas de origem animal. Contudo, essa suposta concorrência não existe. Muito pelo contrário, são mercados complementares. De acordo com relatórios da ONU, cerca de 300 milhões de pessoas passam fome diariamente no mundo. Ou seja, antes de pensarmos em concorrência, ainda tem muita boca pra ser alimentada. É preciso uma soma de soluções, especialmente evitando aumento na pressão no uso de terras e recursos naturais. Daí as proteínas alternativas, que vêm para agregar ainda mais valor ao agro brasileiro”. Alysson Soares Head de Políticas Públicas do GFI Brasil View this post on Instagram A post shared by The Good Food Institute Brasil (@thegoodfoodinstitutebrasil)

COP30 avança na agenda climática, mas mantém sistemas alimentares e diversificação de proteínas fora do centro das decisões

Os resultados formais da COP30, reunidos no Pacote de Belém e na chamada Decisão do Mutirão Global, reforçaram compromissos importantes em financiamento climático, adaptação e preservação de florestas. No entanto, apesar da relevância crescente dos sistemas alimentares para a agenda climática global, o tema segue sub-representado nos documentos de decisão. Enquanto as negociações oficiais mantêm foco em energia, transparência e fluxos financeiros, a transformação dos sistemas de produção de alimentos, responsável por um terço das emissões globais e profundamente ligada à segurança alimentar, à saúde pública e à conservação, apareceu apenas de forma indireta. Os sistemas alimentares e a diversificação das fontes de proteína não integraram o texto final do Mutirão ou do Global Goal on Adaptation.  Por outro lado, a Presidência da COP30 reconheceu de maneira explícita, em sua agenda de ação, que transformar a agricultura e os sistemas alimentares é essencial para acelerar a implementação do Acordo de Paris. O eixo dedicado ao tema inclui restauração de terras, agricultura sustentável e construção de sistemas alimentares mais resilientes e justos. 4ª Carta da Presidência sobre a COP30  Entre os muitos documentos que cercaram a COP30, a chamada “4ª carta” da Presidência (COP30 4th Letter: Action Agenda / Mutirão) revela a ambição política que o Brasil buscou imprimir ao encontro. Ali, a Presidência da COP delineia seis grandes eixos da mobilização global, e um deles assume papel estratégico: Transformar a Agricultura e os Sistemas Alimentares. Nesse eixo, a carta descreve três frentes que, juntas, formam um roteiro de futuro para o setor: restauração de terras e agricultura sustentável, construção de sistemas alimentares mais resilientes e adaptativos e garantia de acesso equitativo a alimentos adequados e de qualidade. É um reconhecimento de que a transformação dos sistemas alimentares não é apenas necessária, mas central para enfrentar a crise climática, reduzir desigualdades e garantir segurança alimentar para milhões de pessoas.O fato de termos, pela primeira vez em um documento oficial da Presidência da COP30, a citação direta a sistemas alimentares e sistemas alimentares sustentáveis é significativo. Essa inclusão coloca a agricultura e a alimentação dentro da narrativa maior do Mutirão Global, que é o esforço de mobilização planetária proposto pelo Brasil para impulsionar a implementação célere e justa do Acordo de Paris.Mas é importante destacar que essa carta é uma peça de orientação política, uma sinalização de prioridades. Ela não tem o peso jurídico ou negociado das decisões formais da COP, como o Multirão Global ou a Meta Global de Adaptação. Ainda assim, sua força simbólica e estratégica é inegável. Ela mostra onde a Presidência enxerga potencial de transformação e indica caminhos que, mesmo fora do texto final aprovado pelos países, podem influenciar agendas nacionais, movimentos da sociedade civil e expectativas para as próximas rodadas de negociação.Em outras palavras, a carta não decide, mas aponta. E o fato de apontar diretamente para a necessidade de transformar a maneira como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos é, por si só, um avanço no debate global sobre clima e sistemas alimentares. Esse contraste revela um desafio persistente: a urgência climática já pressionou energia limpa e financiamento climático para o centro do processo multilateral, mas a mudança sistêmica na forma como produzimos e consumimos alimentos ainda não migrou da agenda paralela para o coração das decisões negociadas. Para que a transição global seja de fato compatível com a meta de limitar o aquecimento a 1,5 °C, é fundamental que os sistemas alimentares, incluindo proteínas alternativas, deixem de ser tratados como tema secundário e passem a ocupar o espaço estratégico que deveriam. A COP30 mostrou que há vontade política e evidência científica suficientes. O próximo passo é transformar essa visão em compromissos formais, claros e mensuráveis, capazes de mobilizar investimentos e orientar políticas públicas. Sem isso, o mundo continuará ignorando uma das alavancas mais poderosas para enfrentar a crise climática. Principais avanços Principais lacunas e críticas GFI na COP30 Ao longo das duas semanas do evento, uma mensagem ficou evidente: o investimento tem um papel decisivo na transformação do sistema agroalimentar e na diversificação das fontes de proteína. O GFI foi uma das organizações que levaram esse debate para o foco das discussões. Confira a seguir os principais destaques. 12 de novembro: Jantar com negociadores   O GFI Brasil participou da organização do tradicional jantar plant-based para negociadores agrícolas (com 38 delegados), apresentando um produto de proteína alternativa desenvolvido com tecnologia da Embrapa, apoiado pelo programa de grants do GFI. Este jantar serviu para demonstrar a narrativa do GFI Brasil sobre inovação no Sul Global, promovendo soluções feitas com ingredientes nativos (fibra de caju). 13 de Novembro: Aligning Agriculture Finance and Fiscal Measures with Climate and Nature Goals O evento reuniu formuladores de políticas públicas, investidores e organizações da sociedade civil para discutir como instrumentos financeiros e fiscais podem impulsionar uma transformação global dos sistemas alimentares alinhada ao clima e à natureza. Nossa analista de políticas públicas, Mariana Bernal, participou do painel juntamente com Megan Waters e Changtong Huang (FAIRR), Prof. Shenggen Fan (China Agricultural University), Hongyu GUO (Greenovation Hub), Jeroom Remmers (TAPP Coalition), Rune-Christoffer Dragsdahl, Leonardo Gava Mataram (International Vegetarian Union) e Virginia Antonioli (WRI Brasil). Mariana comenta que durante o painel houve um consenso sobre a necessidade de que os investimentos em soluções agroalimentares sejam feitos por várias fontes. “As blended finances ajudam a estimular investimentos em soluções agroalimentares, que ainda são tidas como inovações de risco, especialmente para o setor privado e os produtores rurais.  A analista do GFI também chamou a atenção para as políticas públicas e medidas fiscais que podem ajudar a democratizar o acesso às proteínas alternativas. “As proteínas alternativas ainda enfrentam resistência do mercado e têm desafios de preço que afastam os consumidores. Medidas fiscais podem auxiliar toda a cadeia de produção de alimentos a ingressar nesse mercado e ofertar produtos de qualidade a um preço justo para as pessoas”.       Principais destaques: A diversificação de proteínas oferece às empresas com alta dependência de proteínas animais a oportunidade de proteger suas cadeias de suprimento de ingredientes e, ao mesmo tempo, construir

Não existe futuro climático sem um sistema alimentar resiliente: o que aprendemos em Bonn, no “esquenta” para a COP 30?

Em junho, a cidade de Bonn, na Alemanha, foi palco da 62ª sessão da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (SB62), uma espécie de “ensaio diplomático” que antecede a realização da trigésima Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), marcada para novembro, em Belém (PA). Representado por Mariana Bernal, analista sênior de políticas públicas, o The Good Food Institute Brasil esteve presente como um dos observadores da UNFCCC. Confira os principais destaques. Bonn 2025: bastidores dos processos de negociação O GFI Brasil continuou seu trabalho no âmbito do Sharm el-Sheikh Joint Work on Agriculture (SSJWA), onde já havia contribuíndo, em parceria com organizações animalistas aliadas, com submissões em parceria para políticas de alimentação baseada em vegetais. Mas o que é o SSJWA? Essa iniciativa de quatro anos – estabelecida em 2022, em Sharm el-Sheikh, no Egito (durante a COP 27) – dedica-se à implementação de ações climáticas no setor agrícola e de segurança alimentar. Durante a COP29, no Azerbaijão, as entidades vinculadas apresentaram um portal online para exibir essas ações. Países-membro e Organizações da Sociedade Civil (CSOs), como o GFI, foram convidados a participar. Em Bonn, por sua vez, o foco do SSJWA baseou-se em abordagens sistêmicas e holísticas para implementar ação climática em agricultura, sistemas alimentares e segurança alimentar, assim como compreensão, cooperação e integração em planos. Para o SB64, programado para junho de 2026, o segundo workshop do grupo será sobre acesso a meios de implementação para ações climáticas na agricultura e segurança alimentar, incluindo o compartilhamento de melhores práticas. No dia a dia dos países, isso inclui temas como: Finanças e tecnologia; Abordagens sustentáveis (agroecologia, agricultura climaticamente inteligente, práticas regenerativas, etc.); Integração em estruturas nacionais (NDCs, NAPs, TNAs, etc.); Capacitação e acesso a financiamento; Coordenação entre órgãos e fundos da UNFCCC; Gestão de riscos, incluindo sistemas de alerta precoce; Sustentabilidade do sistema alimentar vinculada à mitigação. Cabe destacar que o trabalho junto ao SSJWA é essencial para o futuro das proteínas alternativas a nível global. Durante o workshop, o GFI Brasil articulou-se com negociadores da agricultura, além de apoiar uma redação que fosse, de fato, capaz de considerar o sistema alimentar em sua totalidade – incluindo o avanço das proteínas alternativas como estratégia climática fundamental. “Essa perspectiva representa um avanço nas discussões da UNFCCC. Em vez de tratar apenas setores isolados, buscamos integrar áreas como agricultura, energia, transporte e indústria, além de todos os estágios da cadeia alimentar — do plantio e processamento à manufatura, armazenamento, comercialização e consumo” Mariana Bernal Analista sênior de políticas públicas do GFI Brasil O evento em Bonn também foi marcado por discussões sobre o Global Goal on Adaptation (em tradução livre, “Meta global de adaptação”), nas quais o GFI atuou junto a grupos de negociadores para manter indicadores relacionados a sistemas alimentares no radar — ainda que o texto final tenha ficado sem consenso. Além disso, a 4ª Carta da Presidência da COP 30 foi publicada durante a SB62, apoiada por um briefing da Presidência sobre a Agenda de Ação e um briefing logístico durante as sessões. A agricultura e os sistemas alimentares foram incluídos no item 3 da agenda oficial, apresentando os seguintes subtópicos: restauração da terra e agricultura sustentável, sistemas alimentares mais resilientes, adaptáveis e sustentáveis e acesso equitativo a alimentos e nutrição adequados para todos. Conferência coproduzida pelo GFI Brasil No segundo dia de evento, em parceria com Proveg e PAN International, o GFI Brasil coorganizou a conferência Future proofing food: Is protein diversification the key to healthier and sustainable food policies? (em tradução livre, “Alimentos à prova de futuro: a diversificação de proteínas é a chave para políticas alimentares mais saudáveis e sustentáveis?”). Apesar do espaço menor oferecido pela UFCCC na programação dedicada a conferências paralelas, o Future Proofing Food reuniu representantes do EIT Food, do Ministério da Alimentação, Agricultura e Pesca da Dinamarca e da Proveg, além de 30 participantes na plateia (incluindo representantes da Fundação das Nações Unidas e da própria Convenção-Quadro da ONU). Na apresentação, destacamos a importância do texto Carne de origem vegetal e alimentos ultraprocessados: o que os profissionais de saúde precisam saber, elaborado pelo GFI Europa e a PAN Internacional. Enfatizamos, também, os desafios e oportunidades para ampliar a adoção de proteínas alternativas no Brasil, em um contexto de políticas alimentares mais saudáveis e sustentáveis. Side Event Future proofing food: Is protein diversification the key to healthier and sustainable food policies? (Bonn, 2025). Caminhos para a COP e a Declaração de Belém por Dietas Ricas em Plantas Por fim, junto a diversas organizações que atuam no setor – a ProVeg International e Plant Based Canada são alguns desses nomes –, o GFI Brasil assinou a Declaração de Belém por Dietas Ricas em Plantas. A carta divide-se em 5 pontos essenciais: 1) Mitigação da crise climática; 2) Benefícios na saúde pública; 3) Proteção à biodiversidade; 4) Segurança e resiliência alimentar; e 5) Benefícios econômicos. Ela também chama atenção de governos para o fato de que dietas tradicionais do Sul Global são responsáveis por alimentos ricos em fibras e à base de plantas, e cobra ações diretas que ajudem a promover sistemas alimentares mais saudáveis e resistentes ao clima. “Com a próxima COP acontecendo no Brasil, temos a chance de liderar o debate global sobre sistemas alimentares resilientes ao clima. A Declaração de Belém é um chamado claro para que os governos apresentem compromissos e planos concretos até 2027”, enfatiza Bernal. Essa declaração ganha uma urgência ainda maior quando se considera que os sistemas alimentares geram cerca de um terço (34%) das emissões de gases de efeito estufa no mundo e representam 74% das emissões totais do Brasil. Nessa conjuntura, as proteínas alternativas têm a capacidade real de adaptação climática, podendo poupar 12% das terras agrícolas do mundo e frear o desmatamento. Confira um trecho: “Tendo em vista a próxima Conferência das Partes da UNFCCC no Brasil, apelamos aos Estados-Membros da ONU para que: Estabeleçam Planos de Ação Nacionais para Alimentos à Base de

GFI Brasil e Fundação Araucária anunciam R$ 2 milhões em investimentos para Programa de Pesquisa em Proteínas Alternativas

O GFI Brasil e a Fundação Araucária anunciam R$ 2 milhões para apoiar pesquisas em proteínas alternativas no Paraná. A iniciativa busca desenvolver tecnologias inovadoras em fermentação e cultivo celular para criar alimentos mais acessíveis, sustentáveis e nutritivos. Com prazo de submissão até 25 de julho de 2025, o edital reforça o protagonismo do estado na produção de alimentos do futuro.

No Dia Mundial da Segurança de Alimentos, o GFI Brasil apresenta estudos sobre carne cultivada e proteínas vegetais

No Dia Mundial da Segurança de Alimentos, o GFI Brasil apresenta dois estudos técnicos inéditos que reforçam a importância da segurança no setor de proteínas alternativas. Um deles traz uma análise aprofundada dos riscos e medidas de controle na produção de alimentos vegetais análogos à carne, incluindo planos APPCC para hambúrguer, frango, linguiça e peixe vegetal. O outro estudo, focado em carne cultivada, propõe um plano de segurança alimentar baseado em uma linha piloto de hambúrguer, identificando perigos e lacunas que exigem mais pesquisa.

Utilizada há milênios na gastronomia, a fermentação pode, mais uma vez, revolucionar a alimentação

Kafta feito por fermentação. Empresa - Chunk Foods

A próxima grande revolução alimentar já está em curso — e o Brasil tem todas as condições para liderá-la. Estamos falando do avanço das proteínas alternativas produzidas por fermentação, uma tecnologia inovadora que pode transformar profundamente a forma como produzimos alimentos, tornando o sistema alimentar global mais sustentável, seguro e eficiente. Para ajudar a traçar os caminhos desse futuro promissor, o GFI Brasil acaba de lançar a publicação Fermentação no Brasil: oportunidades e caminhos para o desenvolvimento do setor de proteínas alternativas. O estudo reúne dados inéditos sobre o estado da arte da fermentação no país, identifica as capacidades técnicas e industriais já existentes, e propõe ações concretas para alavancar esse setor estratégico. Um novo uso para um saber antigo A fermentação é uma tecnologia conhecida há milênios — pão, vinho, tofu, tempeh e iogurte são produtos fermentados. Mas, nas últimas décadas, ela vem ganhando novas aplicações por meio da biotecnologia moderna. Hoje, é possível usar micro-organismos como “fábricas celulares” para produzir ingredientes funcionais, proteínas com alto valor nutricional e até estruturas com textura e sabor semelhantes aos de produtos de origem animal. Trata-se de uma tecnologia versátil, com aplicações que vão desde a formulação de alimentos plant-based mais atrativos até a produção de proteínas completas e ingredientes para a carne cultivada. E o melhor: com menor impacto ambiental e maior eficiência no uso de recursos naturais. “O Brasil tem um papel fundamental na produção de alimentos e pode liderar a construção de um sistema alimentar mais sustentável. Com o aumento da demanda por proteínas e os desafios ambientais da produção convencional, a fermentação surge como uma solução promissora para a obtenção de ingredientes com melhores aspectos sensoriais, nutricionais e tecnológicos.”, afirma Isabela Pereira, uma das autoras do estudo. Isabela Pereira Analista de ciência e tecnologia do GFI Brasil Esse processo tecnológico, segundo Isabela, pode ser utilizado para desenvolver proteínas alternativas por meio da fermentação tradicional (que usa bactérias e fungos para transformar ingredientes em alimentos como tofu, tempeh e iogurtes), de biomassa (que utiliza, por exemplo, fungos filamentosos para produzir micoproteínas com textura semelhante à carne) ou de precisão (que aplica engenharia genética para programar microrganismos a produzirem proteínas e ingredientes idênticos aos de origem animal), permitindo a criação de produtos e insumos de forma eficiente, em virtude do crescimento rápido e alta produtividade dos microrganismos. O que torna o Brasil tão bem posicionado para se destacar nessa indústria? Nosso país já conta com uma base sólida para impulsionar esse novo setor. A experiência acumulada nas últimas décadas com a indústria de biocombustíveis — especialmente o etanol — e com a produção de enzimas industriais é uma vantagem competitiva real. Temos infraestrutura instalada, mão de obra qualificada, capacidade de produção de insumos e uma rede de pesquisa científica robusta. O estudo do GFI Brasil identificou mais de 60 instituições relevantes no ecossistema de fermentação no Brasil, incluindo 40 universidades, além de centros de pesquisa com know-how técnico e científico. É um retrato de um país que já possui as peças-chave para ativar uma nova cadeia produtiva — com potencial de geração de valor, empregos e inovação. Um setor estratégico para o futuro do Brasil Investir no setor de fermentação para proteínas alternativas é investir em soberania tecnológica, segurança alimentar, bioeconomia e desenvolvimento sustentável. É posicionar o Brasil não apenas como celeiro do mundo, mas como laboratório de soluções alimentares para o planeta. Para que o Brasil se consolide como líder global em fermentação para proteínas alternativas, o estudo recomenda o estabelecimento de parcerias entre universidades, startups e empresas para compartilhamento de infraestrutura e conhecimento; investimento público e privado em CMO (Contract Manufacturing Organizations); engajamento de agroindústrias como fornecedoras de insumos fermentescíveis; promoção da pesquisa em novos microrganismos e rotas biotecnológicas; e fortalecimento de políticas públicas que estimulem a inovação e a bioeconomia. “Com políticas públicas adequadas, apoio à inovação, incentivo à formação de talentos e articulação entre governo, academia e setor privado, podemos acelerar esse desenvolvimento e colher frutos em médio prazo”, argumenta Isabela. Com este estudo, convidamos empresas, pesquisadores, investidores e formuladores de políticas a construírem juntos um futuro em que a comida boa para todos também seja boa para o planeta.