Posts recentes

Depois do boom das proteínas, vem aí o momento das fibras: como as carnes vegetais podem fazer parte dessa onda

A cultura wellness que emergiu nos anos 2010 trazia uma promessa sedutora: otimizar o corpo como se otimiza um sistema. Dietas de precisão, suplementação estratégica, jejum intermitente, contagem de macronutrientes, são exemplos de como a saúde virou um projeto de engenharia pessoal, e a alimentação, uma de suas principais ferramentas.  Nesse contexto, a proteína tornou-se o ingrediente heroico: constrói músculo, auxilia na saciedade e ainda traz a sensação de que a refeição “valeu a pena”. Com o tempo, porém, a conversa sobre bem-estar começou a se ampliar. Sem abandonar a busca por performance e saúde física, os consumidores passaram a incorporar uma visão mais holística, que inclui também equilíbrio emocional, qualidade de vida e sustentabilidade dos hábitos, especialmente as gerações mais jovens, sinalizando a ampliação da ideia de bem-estar, com menos ênfase na performance e uma consciência maior sobre a importância de cuidar do corpo e da mente, tudo em equilíbrio. Essa mudança representa uma reconfiguração profunda do que significa comer bem e, consequentemente, do papel do alimento nessa equação. Vendidos hoje até na forma de água proteica, derivados de whey protein começam a dar espaço para novos hábitos alimentares. Nesse contexto, a saúde intestinal ganha destaque, com consumidores cada vez mais atentos ao seu protagonismo no bem-estar holístico. A ciência do microbioma popularizou a ideia de que a saúde intestinal está conectada à imunidade, à energia, ao humor, ao sono, à inflamação sistêmica. Dados apontam que 60% dos consumidores globais acreditam que a saúde intestinal é “realmente importante” para todo o corpo e cerca de 44% afirmam notar outros benefícios ao melhorarem a saúde intestinal, como aumento de energia, melhora da pele ou do sistema imunológico. Não demorou para a nova tendência ganhar destaque nas redes sociais.  Muitos especialistas do mercado estão apostando nas fibras como a próxima queridinha dos consumidores. Chamado de fibermaxxing, o movimento consiste em aumentar significativamente o consumo de fibras com o objetivo de potencializar seus benefícios, muitas vezes até ultrapassando as recomendações diárias.  A resposta da indústria não tardou. O crescimento de claims relacionados ao bem-estar digestivo, à microbiota e aos prebióticos em lançamentos de alimentos e bebidas tem sido consistente e acelerado. Lançamentos globais de alimentos e bebidas com alegações de benefícios para a saúde intestinal aumentaram 61% somente entre 2024 e 2025. Mas o dado mais revelador está nas categorias onde esses lançamentos acontecem. A exemplo do que vem ocorrendo com as proteínas, a saúde intestinal extrapolou os produtos óbvios como iogurtes e suplementos e chegou aos refrigerantes, chocolates, sorvetes, snacks, massas. A funcionalidade migrou do corredor farmacêutico para o cotidiano, não por acidente, mas por estratégia. “Acho que a fibra será a próxima proteína” – Ramon Laguarta, CEO da PepsiCo, em entrevista para o jornal O Globo. Uma empresa que captou muito bem esse movimento foi a Danone. Durante décadas, a empresa construiu uma posição no mercado ao trabalhar saúde intestinal como benefício cotidiano, indo além da solução de problemas, e incorporando o benefício a uma rotina de bem-estar acessível e prazerosa. O Activia – linha de iogurtes funcionais da Danone – nunca precisou se parecer com um remédio para funcionar como produto funcional. Ao contrário, sua estratégia foi ancorá-lo ao cotidiano, ao ritual, ao prazer simples de uma refeição que faz bem. A comunicação nunca usou jargões clínicos, nunca criou ansiedade em torno da digestão, nunca colocou o consumidor no papel de paciente. Posicionou o produto como aliado de uma vida bem vivida, leve, equilibrada, agradável. Esse é o insight central da nova funcionalidade: ela não pode parecer um sacrifício. O consumidor contemporâneo não está disposto a trocar prazer por saúde, ele quer os dois ao mesmo tempo, na mesma embalagem. A ideia de que funcional e delicioso são categorias excludentes perdeu aderência, pois o funcional que alcança o mainstream é justamente aquele que se integra à vida real sem exigir que ela seja sacrificada. “As fibras alimentares exercem funções que vão muito além do funcionamento intestinal. Dependendo de suas características, podem favorecer a microbiota, contribuir para a produção de ácidos graxos de cadeia curta, promover maior saciedade e apoiar a saúde metabólica. Alimentos de origem vegetal naturalmente ricos em fibras representam uma oportunidade de ampliar esse consumo de forma prática e integrada à alimentação cotidiana.” Valéria Lobato Guimarães Nutricionista e consultora científica E as carnes vegetais, com isso? A categoria de proteínas vegetais carrega uma vantagem competitiva concreta que ainda não foi explorada: produtos de origem vegetal são, por composição natural, fontes relevantes de fibra dietética. Leguminosas e grãos, por exemplo, não precisam de adição artificial para oferecer um perfil nutricional que combina proteína e fibra no mesmo produto, o que representa exatamente a combinação que o movimento de saúde e bem-estar está tornando desejável em escala global. Essa vantagem existe nos produtos, porém a mensagem ainda não é visível para o consumidor. Os produtos disponíveis no mercado brasileiro já têm esta vantagem na formulação. “Os alimentos vegetais análogos à carne se destacam pelo teor de fibras em comparação à carne convencional, que geralmente carece de fibra alimentar. Essas fibras podem estar naturalmente presentes nos ingredientes utilizados na formulação dos alimentos vegetais análogos à carne, como nas farinhas vegetais ricas em carboidratos complexos, ou ser adicionadas como ingredientes.” Graziele Grossi Bovi Karatay Doutora em engenharia de alimentos e especialista em Ciência e Tecnologia do GFI Brasil Aqui reside um dos pontos de atenção mais estratégicos que a pesquisa do GFI Brasil Estratégias para destravar a categoria de carnes vegetais revela: a comunicação dos benefícios funcionais e emocionais da categoria não está clara para o consumidor. É preciso ocupar o território simbólico de um produto alternativo à carne de origem animal, comunicando seus benefícios, utilizando uma vantagem técnica intrínseca ao produto como uma estratégia de relevância cultural. O alimento que comunica saciedade, digestão saudável e prazer cotidiano fala a um universo de consumidores muito mais amplo do que o alimento que comunica apenas ausência ou substituição, estratégia adotada até hoje por algumas marcas. A pesquisa também identifica que os benefícios

Opinião: As Negociações de Bonn e a Semana de Ação Climática de Londres

No mês passado, participei de dois espaços com propósitos distintos na agenda climática internacional: a Conferência de Bonn sobre Mudança do Clima, que reuniu as sessões dos órgãos subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), e a London Climate Action Week, uma das maiores semanas independentes de ação climática do mundo. Em Bonn, prevaleceu a percepção de uma agenda multilateral lenta, ainda presa a disputas antigas e com pouca clareza sobre como transformar compromissos em implementação. Em Londres, por outro lado, as conversas foram mais práticas e receptivas a soluções para transformar os sistemas alimentares globais, inclusive quando o tema era a produção de proteínas para consumo humano. Conferência de Bonn sobre Mudança do Clima Realizada anualmente, a conferência reúne os órgãos subsidiários da UNFCCC para preparar decisões, aprofundar discussões técnicas e avançar temas que serão negociados nas Conferências das Partes, as COPs. Agricultura, mitigação, adaptação, implementação e financiamento climático estão entre os assuntos recorrentes. London Climate Action Week A semana reúne governos, empresas, investidores, organizações da sociedade civil, pesquisadores e outros atores para discutir soluções climáticas, mobilizar recursos e formar coalizões. Embora não seja um espaço formal de negociação, tem ganhado relevância por aproximar diferentes setores e estimular iniciativas voltadas à implementação. Nas negociações de Bonn, as discussões sobre agricultura, adaptação e sistemas alimentares avançaram pouco. Em alguns temas, houve até uma percepção de retrocesso. As conversas continuaram concentradas em divergências sobre linguagem, escopo e responsabilidades, sem respostas suficientes sobre como apoiar países, produtores, empresas e consumidores durante a transição para sistemas alimentares mais sustentáveis. Essa dificuldade chama atenção porque os sistemas alimentares ocupam uma posição central na crise climática. Ainda assim, nos espaços formais de negociação, a alimentação e a transformação dos modelos produtivos tradicionais seguem sendo tratadas com cautela. Com frequência, dedica-se mais tempo à construção de consensos textuais do que à definição de instrumentos concretos de implementação. Na London Climate Action Week, o debate pareceu mais maduro e conectado a desafios práticos. As proteínas alternativas e as proteínas vegetais foram discutidas como parte de uma agenda mais ampla de diversificação produtiva, inovação agrícola e resiliência climática. Em diferentes eventos, as discussões sobre transição proteica dividiram espaço com temas como agricultura regenerativa, financiamento sustentável, cadeias produtivas e valorização de alimentos tradicionais, como feijões, lentilhas, ervilhas e outras leguminosas. Participação na Conferência de Bonn sobre Mudança do Clima – Mariana Bernal Para o setor de proteínas alternativas, esse movimento é relevante. A agenda começa a ultrapassar os limites de uma comunidade especializada e a dialogar com atores que trabalham com clima, agricultura, investimentos, nutrição e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, essa aproximação evidencia que o setor precisa de condições concretas para se integrar às estruturas existentes de produção de alimentos. Isso envolve investimentos em pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura de escalonamento, plantas-piloto, políticas industriais, marcos regulatórios claros, dados robustos e instrumentos financeiros adequados Também exige reconhecer que as proteínas alternativas não são apenas uma questão de escolha individual ou de comportamento de consumo. Elas integram uma discussão estratégica sobre como produzir alimentos com menor pressão sobre a terra, a água, as florestas e o clima, sem abrir mão da segurança alimentar, do desenvolvimento econômico e da inclusão produtiva. As proteínas alternativas estão entre as soluções agroalimentares com maior potencial de mitigação climática. Estimativas indicam que elas podem: evitar até 6,1 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano; reduzir as emissões de metano em até 1,2 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente por ano; diminuir em até 91% o uso da terra, 93% o consumo de água e 94% as emissões, no caso da produção de alimentos à base de plantas; liberar uma área equivalente a duas vezes o tamanho da Índia, caso 50% das proteínas provenientes de carne bovina, suína, de frango e do leite sejam substituídas por alternativas vegetais; gerar até US$ 686 bilhões em valor adicionado à economia, criar 83 milhões de empregos e proporcionar US$ 5,5 trilhões em benefícios climáticos. Nesse contexto, a filantropia desempenha um papel decisivo. Em setores emergentes, recursos filantrópicos podem assumir riscos que o mercado e o poder público ainda evitam. Podem financiar pesquisa pré-competitiva, aproximar ciência e políticas públicas, fortalecer coalizões e contribuir para transformar boas ideias em soluções acessíveis e escaláveis. Leia também: “Todos os planos climáticos devem considerar o setor de alimentos. Saiba o que diferentes setores podem fazer para contribuir” No caso das proteínas alternativas, esse apoio é fundamental para que o desenvolvimento do setor seja orientado por objetivos públicos, como clima, saúde, biodiversidade, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável, e não apenas por ciclos de entusiasmo e retração do mercado. Quanto investimento é necessário? De acordo com o relatório Global Innovation Needs Assessment: Food System Methane, o desenvolvimento das proteínas alternativas e a geração de benefícios ambientais e para a saúde global demandariam investimentos anuais de US$ 10,1 bilhões. Desse total, US$ 4,4 bilhões seriam destinados à pesquisa e desenvolvimento e US$ 5,7 bilhões a incentivos ao setor privado. Brasil como protagonista em proteínas alternativas Também ficou evidente, especialmente em Londres, que o Brasil tem muito a oferecer a essa discussão. Em eventos dedicados à agricultura brasileira, ao financiamento climático e à inovação para uma economia de baixo carbono, o país apareceu como um ator central na agenda de clima e agronegócio. Essa posição não surpreende. O Brasil reúne uma base agrícola poderosa, ampla biodiversidade, capacidade científica, tradição no consumo de leguminosas e uma agenda crescente de bioeconomia e descarbonização. Justamente por isso, as proteínas alternativas não deveriam permanecer à margem desse debate. Elas não competem com a agricultura brasileira. Ao contrário, podem representar uma nova fronteira de desenvolvimento para o setor. Essa agenda pode abrir oportunidades para o uso de ingredientes nacionais, a diversificação de cadeias de valor, a agregação de valor a resíduos e subprodutos agrícolas, a inovação industrial e a criação de novos mercados. Também pode reforçar algo que o Brasil conhece bem: a importância de alimentos vegetais nutritivos, acessíveis e culturalmente relevantes, como o feijão. Para o GFI Brasil,

Matchfunding impulsiona pesquisa em proteínas alternativas e fortalece a inovação no Paraná

Desenvolver proteínas alternativas depende de boas ideias, mas também de condições concretas para que pesquisadores tenham acesso a financiamento, infraestrutura e redes de colaboração capazes de transformar conhecimento científico em inovação. Foi com esse objetivo que o GFI Brasil e a Fundação Araucária lançaram a primeira iniciativa de matchfunding do país dedicada exclusivamente à pesquisa em proteínas alternativas.  O Programa de Fomento à Pesquisa em Proteínas Alternativas: Inovação e Sustentabilidade no Paraná combina recursos filantrópicos e públicos para financiar pesquisas voltadas aos principais desafios tecnológicos do setor. A iniciativa cria uma parceria estratégica que beneficia tanto o setor quanto o estado. Para o setor de proteínas alternativas, o programa ajuda a direcionar recursos para gargalos científicos e tecnológicos que precisam ser superados para que novos ingredientes e produtos cheguem ao mercado com melhor sabor, escala e custo. Para o Estado do Paraná, a parceria fortalece a capacidade de investir em ciência, tecnologia e inovação em áreas diretamente conectadas às suas competências locais, vocações produtivas e prioridades estratégicas. Com investimento de aproximadamente R$ 2 milhões – sendo metade originada pela comunidade de doadores do GFI e a outra pela Fundação Araucária – quatro projetos de universidades paranaenses foram selecionados para desenvolver soluções nas áreas de fermentação, micoproteínas e agricultura celular.  As pesquisas começaram em abril de 2026 e têm foco em tecnologias acessíveis e escalonáveis para o desenvolvimento de ingredientes e produtos análogos à carne. Carne obtida por fermentação – Chunk Um novo modelo para financiar ciência e inovação Mais do que financiar projetos individuais, a iniciativa inaugura um novo modelo de colaboração entre filantropia e poder público para fortalecer a ciência brasileira em áreas estratégicas. “O modelo amplia a capacidade de investimento e permite direcionar recursos para prioridades compartilhadas entre o estado e o setor. No Paraná, isso significa fortalecer áreas em que já existe competência instalada, como fermentação e agricultura celular, enquanto contribui para o desenvolvimento de soluções para desafios estratégicos das proteínas alternativas” Ana Carolina Rossettini Gerente de Desenvolvimento do GFI Brasil Esse é um dos principais potenciais do programa desenvolvido pelo GFI Brasil: combinar recursos filantrópicos e públicos para gerar soluções que atendam, ao mesmo tempo, às necessidades do setor e às prioridades dos estados. As Fundações de Amparo à Pesquisa têm a missão de financiar ciência, tecnologia e inovação em seus territórios. Ao se conectarem a essa agenda, elas conseguem direcionar recursos para temas como inovação em alimentos, segurança alimentar, clima, meio ambiente, redução de emissões, uso mais eficiente de recursos naturais e desenvolvimento econômico baseado em conhecimento. O projeto-pioloto do GFI Brasil Para o The Good Food Institute Brasil, a parceria com as FAPs é uma importante estratégia para direcionar recursos, fortalecer a ciência nacional e acelerar o desenvolvimento de soluções em proteínas alternativas. O modelo permite que cada estado invista a partir de suas próprias necessidades e potencialidades, conectando universidades, pesquisadores, indústria, startups e cadeias produtivas locais. Além de desenvolver soluções que podem beneficiar o próprio estado, os projetos apoiados também podem gerar conhecimento, tecnologias e novos negócios com impacto nacional e internacional. O Brasil reúne biodiversidade, capacidade científica, produção agrícola, indústria de alimentos e talento empreendedor para se tornar uma liderança global nesse campo. Para isso, é fundamental construir mecanismos capazes de transformar esse potencial em inovação concreta O programa com a Fundação Araucária é um primeiro passo importante nessa direção. Ele mostra que é possível criar uma agenda compartilhada entre filantropia e investimento público para acelerar a pesquisa, fortalecer ecossistemas locais e abrir novos caminhos para o futuro da alimentação. Conheça os projetos selecionados: 1. Produção de micoproteína a partir de resíduos agroindustriais Coordenado pelo Dr. Edvaldo Antonio Ribeiro Rosa, Professor Titular de Microbiologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o projeto busca desenvolver um processo de produção de micoproteína utilizando subprodutos da indústria do amido e do setor sucroenergético. A pesquisa avaliará formas de escalar esse processo e sua aplicação em alimentos análogos à carne, contribuindo para o desenvolvimento de ingredientes produzidos a partir de matérias-primas de baixo custo, empregando um fungo considerado seguro para a alimentação e maior aproveitamento de subprodutos agroindustriais. Equipe do projeto Coordenação: Dr. Edvaldo Antonio Ribeiro Rosa (PUCPR) Pesquisadores: Dr. Luiz Fernando Bianchini (PUCPR) e Eduardo Sydney (Typcal) Pesquisadoras em formação: Nicoly Subtil de Oliveira (Pós-doutoranda/PUCPR) e Juliane Furiatti Modesto (Doutoranda/PUCPR). 2. Inteligência Artificial para desenvolver novos ingredientes para agricultura celular Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a professora Dra. Carla Forte Maiolino Molento coordena o projeto RINO (Rotas inteligentes para novos ingredientes aplicados a meios de cultivo na agricultura celular), que combina inteligência artificial e pesquisa experimental para identificar novos ingredientes vegetais destinados aos meios de cultivo utilizados na produção de carne cultivada. A proposta pretende desenvolver formulações livres de insumos de origem animal utilizando resíduos, subprodutos vegetais e compostos obtidos por processos biotecnológicos. A expectativa é reduzir custos e acelerar a identificação de ingredientes promissores para a agricultura celular. Segundo a Dra. Carla, os novos sistemas alimentares podem contribuir com nove dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Porém, o uso de insumos de origem animal representa um entrave técnico, econômico e ético da produção de alimentos via cultivo de células animais. Por isso, sua proposta é prospectar novos insumos vegetais, incluindo subprodutos, resíduos e suas combinações, de baixo custo e alta eficiência para utilização como ingredientes dos meios de cultivo para produção de carne celular, desenvolvendo simultaneamente uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) especificamente voltada à triagem pré-laboratorial de formulações com maior probabilidade de sucesso. A equipe do projeto está em formação, com os editais das bolsas de pesquisa em aberto neste momento – são duas bolsas, uma de mestrado e uma de doutorado. O projeto será conduzido pelos bolsistas próprios em conjunto com a equipe do Laboratório de Zootecnia Celular – Zoocel, em que participam mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos dos projetos em andamento. 3. Desenvolvimento de insumos para meios de cultivo livres de soro fetal bovino Coordenado pela Dra. Renata Ernlund Freitas de Macedo, Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica do

Radar de Oportunidades: confira editais e financiamentos em Proteínas Alternativas

O avanço das proteínas alternativas depende de ciência, escala e investimento. Embora o setor tenha acumulado importantes aprendizados nos últimos anos, ainda há gargalos tecnológicos que precisam ser superados para ampliar a qualidade dos produtos, otimizar processos produtivos, reduzir custos e tornar essas soluções mais acessíveis para a população. Nesse contexto, o financiamento público tem um papel decisivo: ele ajuda a reduzir riscos em etapas iniciais de pesquisa e desenvolvimento, fortalece a infraestrutura científica e cria condições para que universidades, ICTs, startups e empresas transformem conhecimento em inovação aplicada. De acordo com o relatório “Global Innovation Needs Assessment: Food System Methane”, para que o desenvolvimento do setor de proteínas alternativas ocorra e gere benefícios ambientais e para a saúde global, são necessários US$ 10,1 bilhões em investimentos anuais, sendo US$ 4,4 bilhões para pesquisa e desenvolvimento e US$ 5,7 bilhões para incentivos ao setor privado. Embora o número de chamadas públicas e privadas de financiamento dedicadas exclusivamente ao setor ainda seja limitado, pesquisadores, empresas e Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs) podem encontrar oportunidades relevantes em editais voltados a áreas como inovação em alimentos, bioeconomia, economia circular, biotecnologia, métodos alternativos ao uso de animais e desenvolvimento industrial. Esse foi o tema da live Radar de Oportunidades para Proteínas Alternativas, promovida pelo GFI Brasil, que reuniu especialistas da organização para apresentar editais abertos e recentes e discutir como diferentes perfis de projetos podem se conectar às prioridades dessas chamadas. A gravação do encontro está disponível ao final deste artigo. Oportunidades para diferentes perfis de projetos Durante a live, as especialistas Amanda Leitolis e Isabela Pereira destacaram que o primeiro passo para construir uma estratégia de captação de recursos é compreender que nem toda oportunidade menciona explicitamente proteínas alternativas. Em muitos casos, a aderência acontece por meio de desafios tecnológicos relacionados ao desenvolvimento de ingredientes, novos processos produtivos, fermentação, agricultura sustentável, economia circular ou biotecnologia. Em outras palavras, mais importante do que encontrar um edital específico para proteínas alternativas é identificar chamadas cujos objetivos sejam compatíveis com o estágio de desenvolvimento da tecnologia e com os resultados esperados pelo projeto. Onde estão as oportunidades para proteínas alternativas? Diversos editais contemplam temas estratégicos para o setor, como: inovação em alimentos; bioeconomia; economia circular; fermentação; agricultura sustentável; biotecnologia; métodos alternativos ao uso de animais; desenvolvimento industrial. Por isso, entender os objetivos de cada edital, o alinhamento da pesquisa e o grau de inovação da proposta é tão importante quanto cumprir todos os requisitos formais. 1. Finep Mais Inovação Brasil – Cadeias Agroindustriais Sustentáveis A primeira oportunidade apresentada durante a live foi a chamada Finep Mais Inovação Brasil – Rodada 2 – Cadeias Agroindustriais Sustentáveis. O edital apoia projetos voltados ao fortalecimento da indústria nacional, com destaque para pesquisa, desenvolvimento e inovação em alimentos. Entre as linhas temáticas, há oportunidades diretamente relacionadas às proteínas alternativas, incluindo o desenvolvimento de tecnologias para carne cultivada, como formulações de meios de cultivo grau alimentício livres de soro fetal bovino. Quem pode participar? Empresas brasileiras; participação obrigatória de ICTs como parceiras. Recursos Orçamento total de R$ 300 milhões; projetos entre R$ 5 milhões e R$ 40 milhões, dependendo do arranjo.   Prazo Fluxo contínuo até 30 de setembro de 2026. 2. Chamada CNPq/MCTI nº 11/2026 – RENAMA e NAMs Outra oportunidade destacada foi a chamada do CNPq voltada ao fortalecimento da Rede Nacional de Métodos Alternativos (RENAMA). Embora não seja específica para proteínas alternativas, ela dialoga diretamente com pesquisas relacionadas à carne cultivada e outras tecnologias que dependem de modelos celulares avançados. O edital financia projetos envolvendo: Novas Metodologias de Abordagem (NAMs); modelos tridimensionais baseados em células humanas; sistemas microfisiológicos; métodos computacionais; validação de tecnologias alternativas ao uso de animais. Público-alvo Instituições integrantes da RENAMA. Recursos R$ 50 milhões. Prazo Submissões encerradas em 3 de julho de 2026. 3. Finep Mais Inovação Brasil – Economia Circular e Cidades Sustentáveis A terceira oportunidade apresentada mostra como proteínas alternativas podem dialogar com agendas mais amplas de sustentabilidade. O edital apoia projetos de desenvolvimento tecnológico voltados à economia circular, incentivando soluções que promovam adição, retenção e recuperação de valor em processos produtivos. Projetos relacionados ao aproveitamento de coprodutos, novos ingredientes, reaproveitamento de biomassa e otimização de cadeias produtivas podem encontrar aderência nessa chamada. Quem pode participar? Empresas brasileiras; ICTs parceiras obrigatórias. Recursos Orçamento total de R$ 150 milhões; projetos entre R$ 5 milhões e R$ 30 milhões.   Prazo Fluxo contínuo até 31 de agosto de 2026. 4. Coefficient Giving: chamada internacional exclusiva para proteínas alternativas De todas as oportunidades apresentadas, esta é a única dedicada exclusivamente à pesquisa e desenvolvimento em proteínas alternativas. A organização Coefficient Giving pretende investir até US$ 10 milhões em projetos que reduzam barreiras técnicas para o setor. As prioridades incluem: redução de off-flavors em proteínas vegetais e obtidas por fermentação; desenvolvimento de alternativas lipídicas para melhorar sabor e textura; substituição de ovos; caracterização de sabores de espécies de peixes. Quem pode participar? A chamada é aberta para: universidades; institutos de pesquisa; empresas; organizações de P&D de qualquer país. Recursos Entre US$ 100 mil e US$ 1 milhão por projeto. Prazo Inscrições até 10 de agosto de 2026. Mais oportunidades além dos editais Durante a live, o time do GFI Brasil destacou que novos editais são divulgados continuamente para a comunidade. Alguns exemplos recentes incluem: Desafio Bioinovação Amazônia; Chamada FAPEMIG/SEDE nº 011/2026 – Compete Minas; Programa Aurora, da CAPES, voltado à continuidade da trajetória de mães cientistas. Além das chamadas nacionais, também são compartilhadas oportunidades internacionais e editais regionais voltados a pesquisa, empreendedorismo e inovação. Como o GFI Brasil apoia quem busca financiamento O apoio do GFI Brasil não se limita à divulgação de oportunidades. A organização atua conectando pesquisadores, empresas e instituições, ajudando a identificar parceiros estratégicos, orientando sobre o ecossistema de proteínas alternativas e compartilhando prioridades tecnológicas que podem fortalecer propostas de pesquisa e inovação. Durante a live, também foi apresentada uma planilha colaborativa de networking, criada para aproximar participantes interessados nos mesmos editais e estimular a formação de parcerias entre universidades, startups,

Efeito Ozempic: As carnes vegetais como aliadas das dietas GLP-1

A saúde pública vem enfrentando desafios cada vez maiores devido ao crescimento populacional e ao estilo de vida moderno. Um deles é a taxa crescente de obesidade e sobrepeso. Segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), vinculado ao Ministério da Saúde, 34,66% da população brasileira apresenta algum grau de obesidade.  Mundialmente, pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a obesidade esteve associada a cerca de 3,7 milhões de mortes em 2024 e que o número de pessoas vivendo com a condição pode dobrar até 2030. Como aliadas dessa luta, uma dieta equilibrada e a prática constante de exercícios físicos são, segundo médicos e especialistas, as melhores opções para um estilo de vida mais saudável. De acordo com Marina Sallum, nutricionista e especialista em negócios na indústria de alimentos, “Os números de obesidade no Brasil e no mundo revelam um problema estrutural que vai além do comportamento individual – eles refletem um ambiente alimentar que ainda não está totalmente alinhado às necessidades nutricionais da população. Do ponto de vista da saúde pública, isso reforça a urgência de soluções que sejam, ao mesmo tempo, acessíveis, práticas e nutricionalmente adequadas”, explica Marina. As canetas emagrecedoras já chegaram em 33% dos lares brasileiros. Nos últimos anos, contudo, outro componente entrou nessa equação na busca pela saúde e pelo bem-estar: as canetas emagrecedoras. Em 2025, a compra desses medicamentos chegou a US$ 1,669 bilhão – cerca de R$ 9 bilhões. No Brasil, 33% dos lares têm ao menos um morador que utiliza ou já utilizou esses medicamentos, segundo o Instituto Locomotiva. Com o atual cenário, surgiu a necessidade de adequar a alimentação do dia a dia à nova forma de funcionamento do organismo. Segundo a mesma pesquisa, 47% dos domicílios com usuários do medicamento reduziram o consumo de massas e carboidratos, ao passo que 40% aumentaram a ingestão de alimentos considerados saudáveis.  “Os medicamentos GLP-1 vêm mudando a relação de uma parcela crescente da população com a comida – e aqui nasce uma grande oportunidade para a indústria. Com menor apetite e ingestão reduzida, cada refeição passa a ter um peso ainda maior do ponto de vista nutricional: não há espaço para calorias vazias. Isso cria uma demanda real por alimentos densos em nutrientes, ricos em proteína e fibras, e que caibam em porções menores”, afirma Marina. Empresas como a ADM já identificaram o potencial de mercado desse grupo e estão desenvolvendo ingredientes, como proteínas, probióticos e saborizantes, voltados a esse público. “Criamos uma plataforma de soluções completas para apoio ao tratamento de usuários de medicamentos análogos do GLP-1, pensando nas necessidades específicas de cada momento, seja durante o uso das soluções para emagrecimento ou após a aplicação regular, quando há diversos cuidados a serem mantidos. Ao longo do tratamento, o foco é ajudar a promover a saúde muscular, evitar a constipação e manter a microbiota saudável por meio de fibras, pré e probióticos para minimizar desconfortos gástricos e melhorar a absorção de nutrientes.  As proteínas possuem papel fundamental na manutenção de massa muscular e as soluções híbridas ou 100% vegetais, de forma geral, são produtos com quantidade menor de gorduras saturadas, além de apresentarem maior digestibilidade e custo mais acessível para a indústria e o consumidor”, explica Tiago Coroa, gerente de desenvolvimento de produtos e criação da ADM na América Latina. Mounjaro, Ozempic e uma dieta equilibrada Olhando para esse novo nicho de mercado, as carnes vegetais podem se tornar verdadeiras parceiras de pacientes em dietas GLP-1. Segundo estudo conduzido pelo GFI, Aspectos nutricionais dos alimentos vegetais análogos à carne no mercado brasileiro, diversos produtos disponíveis no mercado atualmente são considerados fontes de proteína, alguns com níveis superiores a 50%; já 68% são considerados fontes de fibras; e apenas 9% das carnes vegetais analisadas são altas em gordura. “As carnes vegetais são uma opção interessante para quem precisa de uma alimentação equilibrada. O estudo do GFI Brasil mostra que a categoria vem evoluindo, com avanços importantes na redução de sódio e de gordura saturada em muitos produtos. Além disso, esses alimentos contribuem para o suprimento de proteína e têm um diferencial relevante: a presença de fibras, que não estão presentes na carne convencional. Como em qualquer escolha alimentar, o mais importante é observar a composição nutricional de cada produto e entender como compor uma dieta balanceada de acordo com as necessidades individuais”, afirma Cristiana Ambiel, diretora de Ciência e Tecnologia do GFI e coordenadora do estudo. Diversos produtos plant-based são fontes de proteína, fibra e tem baixos níveis de gordura. Imagem: N.Ovo. “As empresas do setor de proteínas vegetais precisam estar atentas às mudanças de comportamento da população para posicionar a categoria de forma mais estratégica. Se hoje temos uma parcela da população que procura alimentos com as características nutricionais que as carnes vegetais oferecem, precisamos nos comunicar com esse público e mostrar que os produtos estão aqui para apoiá-los nessa jornada”, destaca Raquel Casselli, diretora de Engajamento Corporativo no GFI Brasil. Ela destaca ainda que esse é um exemplo de como uma categoria pode apoiar o consumidor a resolver uma tensão emergente da atualidade, tema que foi destaque na pesquisa Estratégias para destravar o mercado brasileiro de carnes vegetais, publicada pelo GFI, que busca apoiar o setor privado a identificar oportunidades voltadas ao crescimento da categoria. “Categorias fortes não surgem do nada, elas respondem a dilemas reais. Produtos bem-sucedidos tendem a emergir em momentos de mudança cultural, social ou comportamental, em que o consumidor busca resolver um conflito entre desejos e restrições. A função do produto é entregar uma resposta tangível a esse desconforto percebido, ainda que parcialmente. Ao reconhecer uma dor latente e se apresentar como solução, o produto não apenas atende a uma necessidade, ele conquista relevância emocional. E é exatamente essa relevância que transforma a curiosidade inicial em comportamento repetido”, conta Camila Lupetti, especialista em Inteligência de Mercado no GFI Brasil. O que vem por aí? Esse é o primeiro artigo de uma nova série que será apresentada nos canais do GFI Brasil sobre Estratégias para destravar o mercado brasileiro de carnes vegetais. Acompanhe o blog

InovAmazônia: quando apoiar a ciência brasileira gera impacto real

Após três anos de uma parceria muito significativa, GFI Brasil e Fundo JBS pela Amazônia encerraram as atividades do projeto InovAmazônia: Ingredientes para o Mercado de Alimentos Vegetais. Nesse período, sete pesquisadores desenvolveram, com êxito, soluções e ingredientes para a indústria de proteínas alternativas, a partir de espécies nativas do bioma mais rico do planeta. A cerimônia foi muito além das apresentações de resultados dos estudos. Foi a materialização do pensamento que orienta o trabalho do GFI Brasil: as soluções climáticas, tecnológicas e produtivas capazes de impulsionar o setor de proteínas alternativas no Brasil e no Sul Global vão nascer em nossos próprios territórios, das nossas vocações e dos desafios que conhecemos de perto. “O InovAmazônia foi o maior projeto apoiado pelo fundo no eixo de Pesquisa e Desenvolvimento desde sua criação, em 2020. Se não fosse o GFI, não seria possível identificar os melhores parceiros, as pesquisas que precisavam ser desenvolvidas e orquestrar todo esse projeto, trazendo resultados muito relevantes.” Lucas de Oliveira Scarascia Fundo JBS pela Amazônia Em um almoço guiado no restaurante Banana Verde, convidados de diferentes frentes, incluindo pesquisadores, investidores, empresas e atores do ecossistema de inovação, puderam experimentar, em todos os sentidos, o que significa investir em ciência feita no Brasil, a partir da nossa biodiversidade. Esse foi o espírito do evento: mostrar que não há transição sem capacidade local de produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e criar respostas adequadas ao nosso contexto. E poucas agendas traduzem isso tão bem quanto a investigação de espécies nativas da Amazônia com potencial para ampliar e qualificar a oferta de novos ingredientes para a indústria de proteínas alternativas. Te convidamos, então, a conhecer as pesquisas, e, de alguma forma, experienciar os sabores e aromas do InovAmazônia https://youtu.be/j4A0bUWq1lA?si=fZum0iAK_jMBSCcQ Cada prato serviu de ponto de partida para uma das investigações apresentadas, aproximando resultados científicos de aplicações concretas em alimentos, com comentários da chef Priscila Herrera, responsável pela elaboração do menu. Bolinho do sertão, feito com massa de mandioca com proteína de castanha do Brasil, recheado com proteína vegetal e queijo de castanha, servido com chutney de mangá. A primeira entrada foi associada à pesquisa da Dra. Ana Vânia Carvalho, da Embrapa Amazônia Oriental. O destaque foi o uso da castanha-do-brasil como fonte de proteína alternativa para o mercado plant-based, com desenvolvimento de farinha parcialmente desengordurada, concentrado proteico e proteína texturizada. O projeto também demonstrou aplicações em análogos cárneos, como quibe vegetal, hambúrguer e texturizado misto com soja. Enquanto esses avanços eram apresentados, os convidados provavam um bolinho do sertão feito com mandioca, proteína de castanha-do-pará, recheio vegetal e queijo de castanhas, acompanhado de chutney de manga. Na segunda entrada, mini-hambúrguer de babaçu, acompanhado de alface e molho tzatziki, Roseli Ferrari, do ITAL, apresentou a conversão de subprodutos do babaçu em ingrediente proteico por meio de hidrólise e fermentação. O resultado central foi um hambúrguer com 14g de proteína e 9,2g de fibras por 100g de produto, além de formulação mais limpa e aceitação de 88% da nota do produto comercial de referência.  A conversa também trouxe a dimensão de processamento local, escalonamento e possibilidade de miniusinas e estruturas produtivas próximas às comunidades que desenvolvem o extrativismo do babaçu por meio das quebradeiras de coco. Mini hambúrguer à base de proteína de babaçu, alface e molho tzatziki. A participação de Nelinha do Babaçu acrescentou ao momento uma dimensão ainda mais potente: a de que inovação também se constrói com rosto, território, trabalho coletivo e impacto social concreto. “Estar nesse evento é a oportunidade de falar em nome de 350 mil mulheres. Quem saiu ganhando daqui hoje foi a humanidade” Nelinha do Babaçu Empreendedora do projeto Reflyta Na sequência, Priscilla Efraim, da Unicamp, apresentou os avanços no aproveitamento integral do guaraná. A pesquisa desenvolveu ingredientes proteicos a partir de diferentes frações do fruto, incluindo extrações aquosas e hidroalcoólicas, bem como do uso da casca do fruto. Nas formulações extrusadas, os blends com guaraná apresentaram ganhos em expansão, absorção de água e presença de cafeína, além de atributos sensoriais positivos, como cor marrom, aroma defumado e notas associadas à carne e ao grelhado. Enquanto ouviam os resultados, os convidados saboreavam um penne com almôndegas de guaraná. Penne salteado com brócolis ao alho-poró, champignon e tomatinhos confitados com almôndegas de guaraná. O mesmo se deu na apresentação de Juliano Bicas, também da Unicamp, que trouxe avanços em fermentação sólida aplicada a análogos cárneos a partir de basidiomicetos da Amazônia e subprodutos agroindustriais. A proposta, com potencial para gerar biomassa com textura promissora e aromas associados a caldo de carne ou extrato de levedura, se destacou por reduzir etapas de processamento e por apontar caminhos para ingredientes multifuncionais e escaláveis. O prato que acompanhava essa conversa, nhoque de castanha-do-Brasil ao molho cremoso de tucupí e feijão manteiguinha, oferecia uma tradução sensível daquilo que a pesquisa indicava: sofisticação técnica e identidade regional podem caminhar juntas. Nhoque de batata com proteína de castanhas do Brasil, envolvido no molho de tucupí cremoso e feijão manteiguinha. E de sobremesa, o encontro trouxe três frentes de pesquisa, acompanhadas de duas sobremesas de alto padrão: mini torta de limão clássica e mini torta de gianduia.  Acácio Zielinski, da UFSC, apresentou o BioAmazon2mEAT, com foco em estruturas proteicas anisotrópicas e no uso de matérias-primas amazônicas para gerar textura fibrosa, incluindo proteína e gordura obtidas por meio de processos simultâneos e alternativos à extrusão convencional. Anderson Pereira, da UFAM, mostrou o concentrado proteico de amêndoa de tucumã, com salto de 11% para 53% de proteína, e sua aplicação em protótipo de hambúrguer. E Victor Bertucci Neto, da Embrapa Instrumentação, apresentou o desenvolvimento de flavorizantes baseados em cacau e cupuaçu via fermentação controlada, incluindo um reator automatizado com TRL 5 e obtenção de aroma associado a churrasco por aquecimento de cascas e amêndoas. Mini torta de limão: base crocante de bolacha, creme aveludado de chocolate branco com coco, suco de limão e merengue de coco. Mini torta de gianduia: base crocante de avelã e cacau, creme aveludado de chocolate e avelã. Ao longo de

Opinião: Câmara aprova projeto que limita o uso de termos como ‘carne’ e ‘leite’ nos rótulos de produtos plant-based. E agora?

A Câmara dos Deputados aprovou o PL 10556/2018, que proíbe o uso da palavra “leite” por produtos que não sejam de origem animal. O texto aprovado também amplia essa proibição para produtos cárneos, como hambúrgueres e salsichas de origem vegetal. Como o projeto tramitou em regime de urgência, foi votado diretamente no plenário, sem passar pelas comissões técnicas. Produtos cárneos de origem vegetal também serão afetados. Leia também: Câmara limita uso de nomes de leite e carne em produtos vegetais Os defensores do projeto afirmam que a medida protege o consumidor de possíveis enganos na hora da compra. No entanto, pesquisas no Brasil e no exterior mostram que 97% dos consumidores sabem exatamente o que estão comprando. Ou seja, a grande maioria escolhe esses produtos de forma consciente, seja por motivos de saúde, por valores pessoais ou por preocupação ambiental. Leia também: Rotulagem plant-based: veja análise do GFI sobre Nota Técnica do Mapa Além disso, instituições como a Embrapa, a Anvisa e o próprio Ministério da Agricultura já se manifestaram tecnicamente contra esse tipo de restrição, por entenderem que ela pode prejudicar a inovação e as pesquisas desenvolvidas no país. Essa proposta pode representar um retrocesso para a inovação em alimentos no Brasil. As proteínas alternativas são uma oportunidade importante para agregar valor a cadeias do agro brasileiro, como soja, feijão e castanhas. Restringir o uso de nomes que o consumidor já entende não facilita a escolha, pelo contrário, pode gerar mais confusão e limitar a livre concorrência. O projeto segue para o Senado, onde ainda será debatido. Se for aprovado, vai para sanção ou para veto do Presidente da República. O importante agora é que o debate seja técnico, baseado em ciência e no interesse da sociedade.  “Existe uma visão equivocada de que as proteínas alternativas vieram para substituir as proteínas de origem animal. Contudo, essa suposta concorrência não existe. Muito pelo contrário, são mercados complementares. De acordo com relatórios da ONU, cerca de 300 milhões de pessoas passam fome diariamente no mundo. Ou seja, antes de pensarmos em concorrência, ainda tem muita boca pra ser alimentada. É preciso uma soma de soluções, especialmente evitando aumento na pressão no uso de terras e recursos naturais. Daí as proteínas alternativas, que vêm para agregar ainda mais valor ao agro brasileiro”. Alysson Soares Head de Políticas Públicas do GFI Brasil View this post on Instagram A post shared by The Good Food Institute Brasil (@thegoodfoodinstitutebrasil)

COP30 avança na agenda climática, mas mantém sistemas alimentares e diversificação de proteínas fora do centro das decisões

Os resultados formais da COP30, reunidos no Pacote de Belém e na chamada Decisão do Mutirão Global, reforçaram compromissos importantes em financiamento climático, adaptação e preservação de florestas. No entanto, apesar da relevância crescente dos sistemas alimentares para a agenda climática global, o tema segue sub-representado nos documentos de decisão. Enquanto as negociações oficiais mantêm foco em energia, transparência e fluxos financeiros, a transformação dos sistemas de produção de alimentos, responsável por um terço das emissões globais e profundamente ligada à segurança alimentar, à saúde pública e à conservação, apareceu apenas de forma indireta. Os sistemas alimentares e a diversificação das fontes de proteína não integraram o texto final do Mutirão ou do Global Goal on Adaptation.  Por outro lado, a Presidência da COP30 reconheceu de maneira explícita, em sua agenda de ação, que transformar a agricultura e os sistemas alimentares é essencial para acelerar a implementação do Acordo de Paris. O eixo dedicado ao tema inclui restauração de terras, agricultura sustentável e construção de sistemas alimentares mais resilientes e justos. 4ª Carta da Presidência sobre a COP30  Entre os muitos documentos que cercaram a COP30, a chamada “4ª carta” da Presidência (COP30 4th Letter: Action Agenda / Mutirão) revela a ambição política que o Brasil buscou imprimir ao encontro. Ali, a Presidência da COP delineia seis grandes eixos da mobilização global, e um deles assume papel estratégico: Transformar a Agricultura e os Sistemas Alimentares. Nesse eixo, a carta descreve três frentes que, juntas, formam um roteiro de futuro para o setor: restauração de terras e agricultura sustentável, construção de sistemas alimentares mais resilientes e adaptativos e garantia de acesso equitativo a alimentos adequados e de qualidade. É um reconhecimento de que a transformação dos sistemas alimentares não é apenas necessária, mas central para enfrentar a crise climática, reduzir desigualdades e garantir segurança alimentar para milhões de pessoas.O fato de termos, pela primeira vez em um documento oficial da Presidência da COP30, a citação direta a sistemas alimentares e sistemas alimentares sustentáveis é significativo. Essa inclusão coloca a agricultura e a alimentação dentro da narrativa maior do Mutirão Global, que é o esforço de mobilização planetária proposto pelo Brasil para impulsionar a implementação célere e justa do Acordo de Paris.Mas é importante destacar que essa carta é uma peça de orientação política, uma sinalização de prioridades. Ela não tem o peso jurídico ou negociado das decisões formais da COP, como o Multirão Global ou a Meta Global de Adaptação. Ainda assim, sua força simbólica e estratégica é inegável. Ela mostra onde a Presidência enxerga potencial de transformação e indica caminhos que, mesmo fora do texto final aprovado pelos países, podem influenciar agendas nacionais, movimentos da sociedade civil e expectativas para as próximas rodadas de negociação.Em outras palavras, a carta não decide, mas aponta. E o fato de apontar diretamente para a necessidade de transformar a maneira como produzimos, distribuímos e consumimos alimentos é, por si só, um avanço no debate global sobre clima e sistemas alimentares. Esse contraste revela um desafio persistente: a urgência climática já pressionou energia limpa e financiamento climático para o centro do processo multilateral, mas a mudança sistêmica na forma como produzimos e consumimos alimentos ainda não migrou da agenda paralela para o coração das decisões negociadas. Para que a transição global seja de fato compatível com a meta de limitar o aquecimento a 1,5 °C, é fundamental que os sistemas alimentares, incluindo proteínas alternativas, deixem de ser tratados como tema secundário e passem a ocupar o espaço estratégico que deveriam. A COP30 mostrou que há vontade política e evidência científica suficientes. O próximo passo é transformar essa visão em compromissos formais, claros e mensuráveis, capazes de mobilizar investimentos e orientar políticas públicas. Sem isso, o mundo continuará ignorando uma das alavancas mais poderosas para enfrentar a crise climática. Principais avanços Principais lacunas e críticas GFI na COP30 Ao longo das duas semanas do evento, uma mensagem ficou evidente: o investimento tem um papel decisivo na transformação do sistema agroalimentar e na diversificação das fontes de proteína. O GFI foi uma das organizações que levaram esse debate para o foco das discussões. Confira a seguir os principais destaques. 12 de novembro: Jantar com negociadores   O GFI Brasil participou da organização do tradicional jantar plant-based para negociadores agrícolas (com 38 delegados), apresentando um produto de proteína alternativa desenvolvido com tecnologia da Embrapa, apoiado pelo programa de grants do GFI. Este jantar serviu para demonstrar a narrativa do GFI Brasil sobre inovação no Sul Global, promovendo soluções feitas com ingredientes nativos (fibra de caju). 13 de Novembro: Aligning Agriculture Finance and Fiscal Measures with Climate and Nature Goals O evento reuniu formuladores de políticas públicas, investidores e organizações da sociedade civil para discutir como instrumentos financeiros e fiscais podem impulsionar uma transformação global dos sistemas alimentares alinhada ao clima e à natureza. Nossa analista de políticas públicas, Mariana Bernal, participou do painel juntamente com Megan Waters e Changtong Huang (FAIRR), Prof. Shenggen Fan (China Agricultural University), Hongyu GUO (Greenovation Hub), Jeroom Remmers (TAPP Coalition), Rune-Christoffer Dragsdahl, Leonardo Gava Mataram (International Vegetarian Union) e Virginia Antonioli (WRI Brasil). Mariana comenta que durante o painel houve um consenso sobre a necessidade de que os investimentos em soluções agroalimentares sejam feitos por várias fontes. “As blended finances ajudam a estimular investimentos em soluções agroalimentares, que ainda são tidas como inovações de risco, especialmente para o setor privado e os produtores rurais.  A analista do GFI também chamou a atenção para as políticas públicas e medidas fiscais que podem ajudar a democratizar o acesso às proteínas alternativas. “As proteínas alternativas ainda enfrentam resistência do mercado e têm desafios de preço que afastam os consumidores. Medidas fiscais podem auxiliar toda a cadeia de produção de alimentos a ingressar nesse mercado e ofertar produtos de qualidade a um preço justo para as pessoas”.       Principais destaques: A diversificação de proteínas oferece às empresas com alta dependência de proteínas animais a oportunidade de proteger suas cadeias de suprimento de ingredientes e, ao mesmo tempo, construir

Não existe futuro climático sem um sistema alimentar resiliente: o que aprendemos em Bonn, no “esquenta” para a COP 30?

Em junho, a cidade de Bonn, na Alemanha, foi palco da 62ª sessão da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (SB62), uma espécie de “ensaio diplomático” que antecede a realização da trigésima Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), marcada para novembro, em Belém (PA). Representado por Mariana Bernal, analista sênior de políticas públicas, o The Good Food Institute Brasil esteve presente como um dos observadores da UNFCCC. Confira os principais destaques. Bonn 2025: bastidores dos processos de negociação O GFI Brasil continuou seu trabalho no âmbito do Sharm el-Sheikh Joint Work on Agriculture (SSJWA), onde já havia contribuíndo, em parceria com organizações animalistas aliadas, com submissões em parceria para políticas de alimentação baseada em vegetais. Mas o que é o SSJWA? Essa iniciativa de quatro anos – estabelecida em 2022, em Sharm el-Sheikh, no Egito (durante a COP 27) – dedica-se à implementação de ações climáticas no setor agrícola e de segurança alimentar. Durante a COP29, no Azerbaijão, as entidades vinculadas apresentaram um portal online para exibir essas ações. Países-membro e Organizações da Sociedade Civil (CSOs), como o GFI, foram convidados a participar. Em Bonn, por sua vez, o foco do SSJWA baseou-se em abordagens sistêmicas e holísticas para implementar ação climática em agricultura, sistemas alimentares e segurança alimentar, assim como compreensão, cooperação e integração em planos. Para o SB64, programado para junho de 2026, o segundo workshop do grupo será sobre acesso a meios de implementação para ações climáticas na agricultura e segurança alimentar, incluindo o compartilhamento de melhores práticas. No dia a dia dos países, isso inclui temas como: Finanças e tecnologia; Abordagens sustentáveis (agroecologia, agricultura climaticamente inteligente, práticas regenerativas, etc.); Integração em estruturas nacionais (NDCs, NAPs, TNAs, etc.); Capacitação e acesso a financiamento; Coordenação entre órgãos e fundos da UNFCCC; Gestão de riscos, incluindo sistemas de alerta precoce; Sustentabilidade do sistema alimentar vinculada à mitigação. Cabe destacar que o trabalho junto ao SSJWA é essencial para o futuro das proteínas alternativas a nível global. Durante o workshop, o GFI Brasil articulou-se com negociadores da agricultura, além de apoiar uma redação que fosse, de fato, capaz de considerar o sistema alimentar em sua totalidade – incluindo o avanço das proteínas alternativas como estratégia climática fundamental. “Essa perspectiva representa um avanço nas discussões da UNFCCC. Em vez de tratar apenas setores isolados, buscamos integrar áreas como agricultura, energia, transporte e indústria, além de todos os estágios da cadeia alimentar — do plantio e processamento à manufatura, armazenamento, comercialização e consumo” Mariana Bernal Analista sênior de políticas públicas do GFI Brasil O evento em Bonn também foi marcado por discussões sobre o Global Goal on Adaptation (em tradução livre, “Meta global de adaptação”), nas quais o GFI atuou junto a grupos de negociadores para manter indicadores relacionados a sistemas alimentares no radar — ainda que o texto final tenha ficado sem consenso. Além disso, a 4ª Carta da Presidência da COP 30 foi publicada durante a SB62, apoiada por um briefing da Presidência sobre a Agenda de Ação e um briefing logístico durante as sessões. A agricultura e os sistemas alimentares foram incluídos no item 3 da agenda oficial, apresentando os seguintes subtópicos: restauração da terra e agricultura sustentável, sistemas alimentares mais resilientes, adaptáveis e sustentáveis e acesso equitativo a alimentos e nutrição adequados para todos. Conferência coproduzida pelo GFI Brasil No segundo dia de evento, em parceria com Proveg e PAN International, o GFI Brasil coorganizou a conferência Future proofing food: Is protein diversification the key to healthier and sustainable food policies? (em tradução livre, “Alimentos à prova de futuro: a diversificação de proteínas é a chave para políticas alimentares mais saudáveis e sustentáveis?”). Apesar do espaço menor oferecido pela UFCCC na programação dedicada a conferências paralelas, o Future Proofing Food reuniu representantes do EIT Food, do Ministério da Alimentação, Agricultura e Pesca da Dinamarca e da Proveg, além de 30 participantes na plateia (incluindo representantes da Fundação das Nações Unidas e da própria Convenção-Quadro da ONU). Na apresentação, destacamos a importância do texto Carne de origem vegetal e alimentos ultraprocessados: o que os profissionais de saúde precisam saber, elaborado pelo GFI Europa e a PAN Internacional. Enfatizamos, também, os desafios e oportunidades para ampliar a adoção de proteínas alternativas no Brasil, em um contexto de políticas alimentares mais saudáveis e sustentáveis. Side Event Future proofing food: Is protein diversification the key to healthier and sustainable food policies? (Bonn, 2025). Caminhos para a COP e a Declaração de Belém por Dietas Ricas em Plantas Por fim, junto a diversas organizações que atuam no setor – a ProVeg International e Plant Based Canada são alguns desses nomes –, o GFI Brasil assinou a Declaração de Belém por Dietas Ricas em Plantas. A carta divide-se em 5 pontos essenciais: 1) Mitigação da crise climática; 2) Benefícios na saúde pública; 3) Proteção à biodiversidade; 4) Segurança e resiliência alimentar; e 5) Benefícios econômicos. Ela também chama atenção de governos para o fato de que dietas tradicionais do Sul Global são responsáveis por alimentos ricos em fibras e à base de plantas, e cobra ações diretas que ajudem a promover sistemas alimentares mais saudáveis e resistentes ao clima. “Com a próxima COP acontecendo no Brasil, temos a chance de liderar o debate global sobre sistemas alimentares resilientes ao clima. A Declaração de Belém é um chamado claro para que os governos apresentem compromissos e planos concretos até 2027”, enfatiza Bernal. Essa declaração ganha uma urgência ainda maior quando se considera que os sistemas alimentares geram cerca de um terço (34%) das emissões de gases de efeito estufa no mundo e representam 74% das emissões totais do Brasil. Nessa conjuntura, as proteínas alternativas têm a capacidade real de adaptação climática, podendo poupar 12% das terras agrícolas do mundo e frear o desmatamento. Confira um trecho: “Tendo em vista a próxima Conferência das Partes da UNFCCC no Brasil, apelamos aos Estados-Membros da ONU para que: Estabeleçam Planos de Ação Nacionais para Alimentos à Base de