Posts recentes

Depois do boom das proteínas, vem aí o momento das fibras: como as carnes vegetais podem fazer parte dessa onda

23 de julho de 2026

Crédito da imagem: N.Ovo

A cultura wellness que emergiu nos anos 2010 trazia uma promessa sedutora: otimizar o corpo como se otimiza um sistema. Dietas de precisão, suplementação estratégica, jejum intermitente, contagem de macronutrientes, são exemplos de como a saúde virou um projeto de engenharia pessoal, e a alimentação, uma de suas principais ferramentas. 

Nesse contexto, a proteína tornou-se o ingrediente heroico: constrói músculo, auxilia na saciedade e ainda traz a sensação de que a refeição “valeu a pena”. Com o tempo, porém, a conversa sobre bem-estar começou a se ampliar. Sem abandonar a busca por performance e saúde física, os consumidores passaram a incorporar uma visão mais holística, que inclui também equilíbrio emocional, qualidade de vida e sustentabilidade dos hábitos, especialmente as gerações mais jovens, sinalizando a ampliação da ideia de bem-estar, com menos ênfase na performance e uma consciência maior sobre a importância de cuidar do corpo e da mente, tudo em equilíbrio. Essa mudança representa uma reconfiguração profunda do que significa comer bem e, consequentemente, do papel do alimento nessa equação.

Vendidos hoje até na forma de água proteica, derivados de whey protein começam a dar espaço para novos hábitos alimentares.

Nesse contexto, a saúde intestinal ganha destaque, com consumidores cada vez mais atentos ao seu protagonismo no bem-estar holístico. A ciência do microbioma popularizou a ideia de que a saúde intestinal está conectada à imunidade, à energia, ao humor, ao sono, à inflamação sistêmica. Dados apontam que 60% dos consumidores globais acreditam que a saúde intestinal é “realmente importante” para todo o corpo e cerca de 44% afirmam notar outros benefícios ao melhorarem a saúde intestinal, como aumento de energia, melhora da pele ou do sistema imunológico. Não demorou para a nova tendência ganhar destaque nas redes sociais.  Muitos especialistas do mercado estão apostando nas fibras como a próxima queridinha dos consumidores. Chamado de fibermaxxing, o movimento consiste em aumentar significativamente o consumo de fibras com o objetivo de potencializar seus benefícios, muitas vezes até ultrapassando as recomendações diárias. 

A resposta da indústria não tardou. O crescimento de claims relacionados ao bem-estar digestivo, à microbiota e aos prebióticos em lançamentos de alimentos e bebidas tem sido consistente e acelerado. Lançamentos globais de alimentos e bebidas com alegações de benefícios para a saúde intestinal aumentaram 61% somente entre 2024 e 2025. Mas o dado mais revelador está nas categorias onde esses lançamentos acontecem. A exemplo do que vem ocorrendo com as proteínas, a saúde intestinal extrapolou os produtos óbvios como iogurtes e suplementos e chegou aos refrigerantes, chocolates, sorvetes, snacks, massas. A funcionalidade migrou do corredor farmacêutico para o cotidiano, não por acidente, mas por estratégia.

“Acho que a fibra será a próxima proteína” – Ramon Laguarta, CEO da PepsiCo, em entrevista para o jornal O Globo.

Uma empresa que captou muito bem esse movimento foi a Danone. Durante décadas, a empresa construiu uma posição no mercado ao trabalhar saúde intestinal como benefício cotidiano, indo além da solução de problemas, e incorporando o benefício a uma rotina de bem-estar acessível e prazerosa. O Activia – linha de iogurtes funcionais da Danone – nunca precisou se parecer com um remédio para funcionar como produto funcional. Ao contrário, sua estratégia foi ancorá-lo ao cotidiano, ao ritual, ao prazer simples de uma refeição que faz bem. A comunicação nunca usou jargões clínicos, nunca criou ansiedade em torno da digestão, nunca colocou o consumidor no papel de paciente. Posicionou o produto como aliado de uma vida bem vivida, leve, equilibrada, agradável.

Esse é o insight central da nova funcionalidade: ela não pode parecer um sacrifício. O consumidor contemporâneo não está disposto a trocar prazer por saúde, ele quer os dois ao mesmo tempo, na mesma embalagem. A ideia de que funcional e delicioso são categorias excludentes perdeu aderência, pois o funcional que alcança o mainstream é justamente aquele que se integra à vida real sem exigir que ela seja sacrificada.

“As fibras alimentares exercem funções que vão muito além do funcionamento intestinal. Dependendo de suas características, podem favorecer a microbiota, contribuir para a produção de ácidos graxos de cadeia curta, promover maior saciedade e apoiar a saúde metabólica. Alimentos de origem vegetal naturalmente ricos em fibras representam uma oportunidade de ampliar esse consumo de forma prática e integrada à alimentação cotidiana.”
Valéria Lobato Guimarães
Nutricionista e consultora científica

E as carnes vegetais, com isso?

A categoria de proteínas vegetais carrega uma vantagem competitiva concreta que ainda não foi explorada: produtos de origem vegetal são, por composição natural, fontes relevantes de fibra dietética. Leguminosas e grãos, por exemplo, não precisam de adição artificial para oferecer um perfil nutricional que combina proteína e fibra no mesmo produto, o que representa exatamente a combinação que o movimento de saúde e bem-estar está tornando desejável em escala global. Essa vantagem existe nos produtos, porém a mensagem ainda não é visível para o consumidor. Os produtos disponíveis no mercado brasileiro já têm esta vantagem na formulação.

“Os alimentos vegetais análogos à carne se destacam pelo teor de fibras em comparação à carne convencional, que geralmente carece de fibra alimentar. Essas fibras podem estar naturalmente presentes nos ingredientes utilizados na formulação dos alimentos vegetais análogos à carne, como nas farinhas vegetais ricas em carboidratos complexos, ou ser adicionadas como ingredientes.”
Graziele Grossi Bovi Karatay
Doutora em engenharia de alimentos e especialista em Ciência e Tecnologia do GFI Brasil

Aqui reside um dos pontos de atenção mais estratégicos que a pesquisa do GFI Brasil Estratégias para destravar a categoria de carnes vegetais revela: a comunicação dos benefícios funcionais e emocionais da categoria não está clara para o consumidor. É preciso ocupar o território simbólico de um produto alternativo à carne de origem animal, comunicando seus benefícios, utilizando uma vantagem técnica intrínseca ao produto como uma estratégia de relevância cultural. O alimento que comunica saciedade, digestão saudável e prazer cotidiano fala a um universo de consumidores muito mais amplo do que o alimento que comunica apenas ausência ou substituição, estratégia adotada até hoje por algumas marcas. A pesquisa também identifica que os benefícios emocionais associados ao consumo têm peso considerável na decisão de recompra e são um dos direcionais estratégicos que contribuíram para que outras categorias novas no mercado alcançassem sucesso.

Leia a pesquisa na íntegra: Estratégias para destravar a categoria de carnes vegetais.

Como levar a mensagem de que as carnes vegetais análogas podem ser aliadas na rotina de pessoas interessadas em inserir mais fibra na dieta?

A maior oportunidade para a indústria está em reconhecer que a fibra não é um diferencial a ser inventado, mas uma vantagem que já existe nos produtos e que precisa ser comunicada. Embora a proteína continue sendo o principal marcador de saudabilidade para muitos consumidores, as fibras vêm ganhando cada vez mais espaço como símbolo de equilíbrio e bem-estar cotidiano. As carnes vegetais têm a oportunidade de liderar uma nova onda de alimentos funcionais, ampliando o valor percebido do que já está no mercado.

Proteínas alternativas e o The Good Food Institute Brasil

GFI Brasil é uma organização sem fins lucrativos dedicada a acelerar o desenvolvimento de proteínas alternativas no Brasil. Este artigo foi produzido pela equipe de Inteligência de Mercado, com base em pesquisa primária e análise de dados globais de lançamentos e comportamento do consumidor.

Autora

Camila Lupetti

Especialista Sênior de Inteligência de Mercado

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduada em Opinião Pública e Inteligência de Mercado, atuou por 15 anos em institutos de pesquisa de mercado, mídia e opinião pública. Com experiência em planejamento e análise de pesquisas, no GFI Brasil, lidera a área de Inteligência de Mercado, se dedicando a apoiar todo o setor de proteínas alternativas com informações relevantes para a tomada de decisão em temas ligados à categoria.

Confira nossos últimos lançamentos

Últimos posts