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Opinião: As Negociações de Bonn e a Semana de Ação Climática de Londres

21 de julho de 2026

Crédito da imagem: Mariana Bernal

No mês passado, participei de dois espaços com propósitos distintos na agenda climática internacional: a Conferência de Bonn sobre Mudança do Clima, que reuniu as sessões dos órgãos subsidiários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), e a London Climate Action Week, uma das maiores semanas independentes de ação climática do mundo.

Em Bonn, prevaleceu a percepção de uma agenda multilateral lenta, ainda presa a disputas antigas e com pouca clareza sobre como transformar compromissos em implementação. Em Londres, por outro lado, as conversas foram mais práticas e receptivas a soluções para transformar os sistemas alimentares globais, inclusive quando o tema era a produção de proteínas para consumo humano.

Conferência de Bonn sobre Mudança do Clima

Realizada anualmente, a conferência reúne os órgãos subsidiários da UNFCCC para preparar decisões, aprofundar discussões técnicas e avançar temas que serão negociados nas Conferências das Partes, as COPs. Agricultura, mitigação, adaptação, implementação e financiamento climático estão entre os assuntos recorrentes.

London Climate Action Week

A semana reúne governos, empresas, investidores, organizações da sociedade civil, pesquisadores e outros atores para discutir soluções climáticas, mobilizar recursos e formar coalizões. Embora não seja um espaço formal de negociação, tem ganhado relevância por aproximar diferentes setores e estimular iniciativas voltadas à implementação.

Nas negociações de Bonn, as discussões sobre agricultura, adaptação e sistemas alimentares avançaram pouco. Em alguns temas, houve até uma percepção de retrocesso. As conversas continuaram concentradas em divergências sobre linguagem, escopo e responsabilidades, sem respostas suficientes sobre como apoiar países, produtores, empresas e consumidores durante a transição para sistemas alimentares mais sustentáveis.

Essa dificuldade chama atenção porque os sistemas alimentares ocupam uma posição central na crise climática. Ainda assim, nos espaços formais de negociação, a alimentação e a transformação dos modelos produtivos tradicionais seguem sendo tratadas com cautela. Com frequência, dedica-se mais tempo à construção de consensos textuais do que à definição de instrumentos concretos de implementação.

Na London Climate Action Week, o debate pareceu mais maduro e conectado a desafios práticos. As proteínas alternativas e as proteínas vegetais foram discutidas como parte de uma agenda mais ampla de diversificação produtiva, inovação agrícola e resiliência climática. Em diferentes eventos, as discussões sobre transição proteica dividiram espaço com temas como agricultura regenerativa, financiamento sustentável, cadeias produtivas e valorização de alimentos tradicionais, como feijões, lentilhas, ervilhas e outras leguminosas.

Participação na London Climate Action Week - Mariana Bernal

Para o setor de proteínas alternativas, esse movimento é relevante. A agenda começa a ultrapassar os limites de uma comunidade especializada e a dialogar com atores que trabalham com clima, agricultura, investimentos, nutrição e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, essa aproximação evidencia que o setor precisa de condições concretas para se integrar às estruturas existentes de produção de alimentos.

Isso envolve investimentos em pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura de escalonamento, plantas-piloto, políticas industriais, marcos regulatórios claros, dados robustos e instrumentos financeiros adequados

Também exige reconhecer que as proteínas alternativas não são apenas uma questão de escolha individual ou de comportamento de consumo. Elas integram uma discussão estratégica sobre como produzir alimentos com menor pressão sobre a terra, a água, as florestas e o clima, sem abrir mão da segurança alimentar, do desenvolvimento econômico e da inclusão produtiva.

As proteínas alternativas estão entre as soluções agroalimentares com maior potencial de mitigação climática. Estimativas indicam que elas podem:

  • evitar até 6,1 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano;
  • reduzir as emissões de metano em até 1,2 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente por ano;
  • diminuir em até 91% o uso da terra, 93% o consumo de água e 94% as emissões, no caso da produção de alimentos à base de plantas;
  • liberar uma área equivalente a duas vezes o tamanho da Índia, caso 50% das proteínas provenientes de carne bovina, suína, de frango e do leite sejam substituídas por alternativas vegetais;
  • gerar até US$ 686 bilhões em valor adicionado à economia, criar 83 milhões de empregos e proporcionar US$ 5,5 trilhões em benefícios climáticos.

Nesse contexto, a filantropia desempenha um papel decisivo. Em setores emergentes, recursos filantrópicos podem assumir riscos que o mercado e o poder público ainda evitam. Podem financiar pesquisa pré-competitiva, aproximar ciência e políticas públicas, fortalecer coalizões e contribuir para transformar boas ideias em soluções acessíveis e escaláveis.

Leia também: "Todos os planos climáticos devem considerar o setor de alimentos. Saiba o que diferentes setores podem fazer para contribuir"

No caso das proteínas alternativas, esse apoio é fundamental para que o desenvolvimento do setor seja orientado por objetivos públicos, como clima, saúde, biodiversidade, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável, e não apenas por ciclos de entusiasmo e retração do mercado.

Quanto investimento é necessário?

De acordo com o relatório Global Innovation Needs Assessment: Food System Methane, o desenvolvimento das proteínas alternativas e a geração de benefícios ambientais e para a saúde global demandariam investimentos anuais de US$ 10,1 bilhões. Desse total, US$ 4,4 bilhões seriam destinados à pesquisa e desenvolvimento e US$ 5,7 bilhões a incentivos ao setor privado.

Brasil como protagonista em proteínas alternativas

Também ficou evidente, especialmente em Londres, que o Brasil tem muito a oferecer a essa discussão. Em eventos dedicados à agricultura brasileira, ao financiamento climático e à inovação para uma economia de baixo carbono, o país apareceu como um ator central na agenda de clima e agronegócio.

Essa posição não surpreende. O Brasil reúne uma base agrícola poderosa, ampla biodiversidade, capacidade científica, tradição no consumo de leguminosas e uma agenda crescente de bioeconomia e descarbonização.

Justamente por isso, as proteínas alternativas não deveriam permanecer à margem desse debate. Elas não competem com a agricultura brasileira. Ao contrário, podem representar uma nova fronteira de desenvolvimento para o setor.

Essa agenda pode abrir oportunidades para o uso de ingredientes nacionais, a diversificação de cadeias de valor, a agregação de valor a resíduos e subprodutos agrícolas, a inovação industrial e a criação de novos mercados. Também pode reforçar algo que o Brasil conhece bem: a importância de alimentos vegetais nutritivos, acessíveis e culturalmente relevantes, como o feijão.

Para o GFI Brasil, as proteínas alternativas não constituem uma pauta paralela à agricultura nacional. Elas fazem parte da próxima fronteira da bioeconomia, da política industrial verde e do desenvolvimento sustentável do país.

O Brasil reúne biodiversidade, capacidade científica, base agrícola, tradição alimentar e um mercado consumidor relevante. Com coordenação entre governo, instituições de pesquisa, setor privado, investidores de impacto e sociedade civil, o país pode liderar uma agenda de proteínas sustentáveis que combine inovação, desenvolvimento econômico e resiliência climática.

Os caminhos para novos sistemas alimentares além das negociações multilaterais

O contraste entre Bonn e Londres deixa uma lição importante. As negociações multilaterais continuam fundamentais para definir linguagem, compromissos e mandatos que orientam a ação climática internacional. No entanto, a transformação dos sistemas alimentares não acontecerá apenas nas salas de negociação.

A implementação depende de políticas nacionais, instrumentos de financiamento, laboratórios, fábricas, atividades no campo e, sobretudo, dos produtos que estarão disponíveis para a população.

A agenda climática ainda concentra grande parte da atenção nos setores de energia, transporte e florestas. Todos são essenciais, mas também é preciso falar de alimentação. E, dentro dessa discussão, é necessário abordar a produção e o consumo de proteínas com mais urgência.

Não existe uma solução única para transformar os sistemas alimentares. Será necessário reduzir perdas e desperdícios em diferentes etapas das cadeias produtivas, apoiar agricultores, proteger florestas, restaurar solos, diversificar cultivos, ampliar o acesso a informações confiáveis sobre alimentação, aperfeiçoar práticas de rotulagem, aumentar a oferta de alimentos nutritivos e reduzir emissões.

A expectativa agora é que essa agenda ganhe mais espaço nos próximos encontros internacionais, especialmente no New York Climate Summit e na COP31. Esses eventos serão oportunidades importantes para avançar do reconhecimento do problema para compromissos mais concretos, capazes de integrar sistemas alimentares, financiamento climático, inovação e diversificação de proteínas às estratégias de mitigação e adaptação. Para isso, será fundamental ampliar a presença do tema nas mesas de decisão e aproximar governos, ciência, setor produtivo, investidores e sociedade civil. Os sistemas alimentares já não podem ser tratados como uma pauta periférica da ação climática, e as proteínas alternativas precisam ser reconhecidas como parte de um conjunto de soluções necessárias para reduzir emissões, fortalecer a segurança alimentar e construir economias mais resilientes.

Autora

Mariana Bernal

Analista Sênior de Políticas Públicas

Internacionalista pela PUC-Rio, trabalhou nas áreas de pesquisa e gestão de projetos de organizações internacionais do terceiro setor voltadas para incidência em políticas públicas, empreendedorismo social e engajamento multilateral. Há quatro anos acompanha as negociações climáticas no âmbito da UNFCCC, desenvolvendo estratégias de engajamento com processos formais de participação e conectando formuladores de políticas públicas ao setor de proteínas alternativas.

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