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China, proteínas alternativas e a próxima etapa do agro brasileiro

6 de outubro de 2026

Minha segunda participação no WAFI trouxe novas perspectivas sobre a transformação dos sistemas alimentares chineses e as oportunidades de o Brasil combinar sua força agrícola com mais ciência, tecnologia e valor agregado

Voltar à China pelo segundo ano consecutivo para participar do World AgriFood Innovation Conference, o WAFI, permitiu observar mudanças que nem sempre aparecem com clareza quando acompanhamos um país à distância. Nesta edição realizada em setembro, no distrito de Pinggu, em Pequim, uma dessas mudanças estava não apenas no conteúdo das apresentações mas também nos espaços aparentemente dominados por outros assuntos.

Alysson Soares, Head de Políticas Publicas do GFI Brasil, na WAFI 2026

As Proteínas Alternativas seguiram presentes nos painéis dedicados ao tema, mas não ficaram restritas a eles. Apareceram nas discussões sobre oportunidades agroalimentares entre Brasil e China, inclusive quando se falou do quinto leilão do Eco Invest Brasil, e na mesa de que participei. Essa presença transversal me chamou a atenção: a conversa já não se limitava ao ambiente de um novo alimento; envolvia financiamento, cooperação internacional e desenvolvimento industrial de ponta. Nesse sentido, foi perceptível o avanço tecnológico e no interesse chinês em relação ao ano anterior, especialmente em cultivo celular e fermentação microbiana. 

Voltei de lá com uma pergunta que diz respeito diretamente ao nosso agronegócio: como transformar essas mudanças em oportunidades para produzir mais conhecimento, tecnologia e valor no Brasil?

Uma agenda que vai além do prato

Participação de Alysson Soares, Head de Políticas Publicas do GFI Brasil, em mesa da WAFI 2026

A presença das proteínas alternativas no planejamento chinês não começou agora. No ciclo do 14º Plano Quinquenal, de 2021 a 2025, o plano setorial de ciência e tecnologia para a agricultura e o meio rural já contemplava a pesquisa em carne cultivada e outros alimentos do futuro. No 15º Plano Quinquenal, de 2026 a 2030, a biomanufatura aparece entre as indústrias do futuro, com aplicações que incluem a produção de alimentos.

Essa agenda se conecta à segurança alimentar e à capacidade de diversificar o abastecimento. O planejamento agrícola chinês combina aumento da capacidade produtiva doméstica, inovação e diversificação das relações comerciais. A discussão sobre soberania alimentar, nesse contexto, envolve não apenas ter acesso à comida, mas também reduzir vulnerabilidades relacionadas às tecnologias, aos insumos e às cadeias que tornam sua produção possível.

Há exemplos concretos dessa passagem da pesquisa para a produção. Em visita técnica, a equipe do GFI APAC registrou uma instalação da Angel Yeast com capacidade anunciada superior a 11 mil toneladas anuais de proteína de levedura. Isso não significa que todas as tecnologias estejam no mesmo estágio, mas ajuda a dimensionar o alcance industrial que algumas delas começam a adquirir.

O que isso significa para o agronegócio brasileiro?

Um estudo publicado pela Systemiq em 2026 projeta, em seu cenário-base, uma redução de aproximadamente 25% nas importações chinesas de soja até 2030, em relação a 2025. Nesse cenário, o principal fator é a diminuição da participação do farelo de soja nas rações.

Ao mesmo tempo, para 2050, o estudo trabalha com cenários em que as Proteínas Alternativas atenderiam entre 35% e 55% da demanda chinesa por proteínas de origem animal. São possibilidades modeladas, dependentes de avanços tecnológicos e econômicos, não metas oficiais do governo chinês.

Essas informações não são contraditórias. Compras elevadas hoje podem coexistir com esforços para reduzir dependências no futuro. Para o agro brasileiro, a questão não é escolher entre otimismo e pessimismo, mas compreender como uma possível mudança na demanda pode alterar as oportunidades de produção e comercialização.

E é nessa discussão que as Proteínas Alternativas se conectam à agroindustrialização brasileira. A oportunidade não se resume a exportar um produto diferente. Ela envolve ampliar o que conseguimos fazer com aquilo que já produzimos. Pesquisas da Embrapa com concentrados proteicos de feijão, lentilha e grão-de-bico, por exemplo, mostram caminhos para diversificar os ingredientes empregados em alimentos de base vegetal.

Na fermentação e no cultivo celular, há também possibilidades de transformar subprodutos agroindustriais em insumos de maior valor agregado. Açúcares e hidrolisados proteicos podem integrar meios de cultivo, desde que atendam aos requisitos técnicos e de segurança. O GFI Brasil já incluiu a avaliação dessas rotas em suas chamadas de pesquisa, contemplando cadeias como soja, milho e cana-de-açúcar.

Isso permite olhar para as Proteínas Alternativas não como uma atividade desconectada do campo, mas como uma possível extensão de suas cadeias produtivas. Entre a lavoura e o alimento final, há espaço para processamento, desenvolvimento de ingredientes, engenharia, equipamentos e serviços especializados. E a China está atenta pois não quer ficar para trás; pelo contrário, pretende liderar.

Cooperação para construir o futuro do Sul Global

A relação entre Brasil e China pode ser examinada ainda por outro ângulo: além do comércio de produtos agropecuários, quais caminhos existem para desenvolver conhecimento, tecnologias e novas cadeias produtivas em conjunto?

Para explorar essa questão, o GFI Brasil lançará uma chamada de propostas de pesquisa, uma RFP, voltada a identificar novos caminhos de parceria entre os dois países em proteínas alternativas. A intenção é produzir uma base mais concreta para compreender oportunidades de colaboração e orientar iniciativas futuras.

Há, naturalmente, desafios importantes. No cultivo celular, por exemplo, custos, meios de cultivo e ampliação da escala continuam entre as questões centrais para a viabilidade industrial. O avanço científico não elimina essas dificuldades; permite investigá-las com mais recursos e experiência.

Minha segunda participação no WAFI reforçou o interesse em acompanhar essa transformação para além dos anúncios. Para o Brasil, a oportunidade está em conectar sua produção agropecuária às novas formas de produzir alimentos, participando também da geração de conhecimento e das etapas industriais. Nosso papel deve, junto à China, Índia e outros países, ser o de liderança nessa nova revolução nos sistemas alimentares. E estamos prontos pra isso.

Autor

Alysson Soares

Head de Políticas Publicas

Cientista Político graduado pela Universidade de Brasília – UnB com extensão em Processo Legislativo Regimental pelo Instituto Legislativo Brasileiro – ILB, possui 8 anos de atuação na área de Relações Governamentais e Institucionais. Experiência com engajamento de tomadores de decisão e monitoramento e análise dos Poderes Legislativo e Executivo, com foco em negociação, formulação de políticas públicas, processo legislativo e processo decisório governamental. Participou e liderou projetos de consultoria para entidades, empresas e associações de classe. Nos últimos anos, atuava representando institucionalmente a cadeia produtiva do feijão e pulses brasileiros.

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